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'O pessoal está notando que a gente existe': o aplicativo que coloca catadores de recicláveis no mapa

13/06/2018 14:42

Foto: BBC BRasil

Nos mais de 20 anos de carreira como catadora de materiais recicláveis, Rosineide Moreira Dias das Neves, a dona Rosa, se habituou à penosa rotina de percorrer as ruas do Recife na missão de filtrar o que é reciclável do que é lixo nas calçadas, tendo que enfrentar preconceito pelo caminho. "Tem muita gente que discrimina o que a gente faz. Acha que a gente é catador de lixo. Não entende que não é lixo, é reciclagem", diz a pernambucana de 55 anos. "A gente está tentando limpar o ambiente, mas a sociedade não vê." Os périplos incertos em busca de papelão, garrafas PET, latinhas de alumínio e outros materiais estão dando lugar a viagens mais garantidas, na medida em que aumentam os chamados de endereços certos para coletar materiais recicláveis - em residências, escolas, lojas ou edifícios. Dona Rosa é uma entre 71 catadores e catadoras de Pernambuco cadastrados no Cataki, um aplicativo lançado em julho do ano passado para conectar catadores independentes a cidadãos ou empresas que queiram dispor materiais recicláveis corretamente - e se descreve como um "Tinder da reciclagem", em referência ao aplicativo de relacionamentos. Desenvolvido pela ONG Pimp My Carroça, do grafiteiro e ativista Mundano, de São Paulo, o Cataki ganhou, em fevereiro, em Paris, o grande prêmio de inovação do Netexplo, observatório que estuda o impacto social e econômico de tecnologias digitais e premia as iniciativas consideradas mais inovadoras, em um fórum realizado em parceria com a Unesco. O aplicativo indica os catadores de uma região em um mapa com ícones de carroças, o veículo com que a maioria transporta os resíduos que coleta. De acordo com a ONG, os catadores são responsáveis pela coleta de 9 em cada 10 quilos de material reciclado no país - mas não têm reconhecimento pelo papel que desempenham. O Censo de 2010 identificou no Brasil, na época, cerca de 400 mil catadores de materiais recicláveis. O país gera mais de 200 mil toneladas de lixo por dia, mas uma parcela pequena vai para reciclagem - cerca de 13%, de acordo com o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "Nosso foco é que os catadores sejam reconhecidos como prestadores de um serviço público, e que o aplicativo ajude a gerar mais renda para eles", diz Carol Pires, coordenadora do Pimp My Carroça. O aplicativo é uma plataforma colaborativa sem fins lucrativos, e os valores para uma coleta ficam a cargo da negociação entre as partes. Não há taxas para usar o app, mas a recomendação é que o catador seja pago pelo serviço, diz Pires - de acordo com a quantidade de material a ser coletado a distância a ser percorrida.

'Invisibilidade social'
No aplicativo, os ícones de carroças levam a um curto porém simpático perfil apresentando cada catador, com foto, apelido, telefone, as áreas onde atua, os tipos de resíduos que coleta e uma breve história de vida. O perfil de Dona Rosa traz sua foto sorridente na Linha do Tiro, bairro onde mora no Recife, na zona norte da capital pernambucana. Inclui seu lema de vida - "a reciclagem trouxe meu sustento" - e um resumo dos veículos dos quais dispôs ao longo de 20 anos na coleta: "começou com triciclo, carroça, cavalo e agora tem uma Kombi velha". A Kombi foi comprada com o dinheiro da rescisão recebida pelo marido há cerca de três anos, quando foi demitido de uma empresa de reciclagem. No ano passado, o veículo passou por uma "pimpada", recauchutagem que está na origem do trabalho do Pimp My Carroça. Em tradução livre, o nome da ONG significa "turbine minha carroça" e foi inspirado no programa americano de TV Pimp My Ride, que transformava latas-velhas em carros turbinados. O projeto foi iniciado por Mundano em 2012, criando mutirões para grafitar carroças de catadores e catadoras e fazer uma série de reparos nos veículos - para aumentar sua visibilidade e autoestima. Diante de públicos internacionais no TED e na Unesco, o grafiteiro vem comparando esses profissionais a super-heróis - que teriam o "poder" da invisibilidade na sociedade, fazendo um trabalho essencial para o meio ambiente e para a sustentabilidade das cidades, mas sem receber reconhecimento. "No mundo todo, as empresas estão gastando bilhões falando em sustentabilidade. Mas essas são as pessoas que estão agindo na prática. Ao conectá-las, podemos aumentar sua renda e ajudá-los em sua missão", afirmou Mundano ao apresentar o app no fórum da Netexplo. O Cataki estava entre as dez inovações premiadas neste ano. Após a apresentação de cada uma, foi eleito pelo público como o grande vencedor deste ano. (BBC BRasil)


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