ArtigosProfª. Marilene Oliveira de Andrade
Poeta do lixo
Constituição do Português Brasileiro: Aspectos históricos e culturais
Pensar sobre a “Constituição Histórica do Português Brasileiro” é remeter-se ao passado histórico, precisamente ao ano de 1500, quando os portugueses chegaram aqui e começaram a impor a sua língua para os autóctones – indígenas –. A partir do contato entre eles instalou-se um novo marco histórico, que paulatinamente produziu uma nova identidade cultural, social e linguística. Sendo que, antes da chegada dos portugueses, aqui no Brasil existia um número considerável de indígenas, a princípio, esses colonizadores foram obrigados a aprender a língua predominante, a saber, a língua dos tupinambás. Segundo Dalva Del Vigna (2001), vale ressaltar que, mediante o encontro inicial das línguas portuguesa e indígena, em especial, a língua Tupi, surgiram as denominadas línguas gerais, destacando a Geral Paulista e a Geral Amazônica ou Nhhengatu, como as principais. Já em meandros dos séculos XVII e XIX, a população brasileira era composta por um grande contingente de africanos. Destaca-se que as línguas africanas também influenciaram nesse panorama linguístico, por conta desses povos que foram trazidos pelos colonizadores para o Brasil. Mediante essa gama de línguas e dialetos, houve uma fragmentação linguística, tornando o país plurilinguístico. Mas buscou-se a utilização de uma língua, que servisse como base para todos os povos, nesse caso, foi apontada a língua portuguesa, ou seja, a língua do dominador-colonizador, por conta de interesses sócio-econômico, político e cultural. Aponta-se também como um fator muito relevante na constituição do português brasileiro (PB), segundo Silvana Araújo e Jean Araújo (2009), em 1808, a chegada ao Rio de Janeiro de um número exorbitante de portugueses, que ali se refugiava da invasão francesa. Em seguida chegaram mais imigrantes de várias nacionalidades, fortalecendo o falar dialetal brasileiro, precisamente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Na conquista de territórios, geralmente ocorria a imposição da língua, dos hábitos e cultura do colonizador, quando acontecia a assimilação da língua desse sujeito por parte do conquistado denominava-se de substrato, mas podia também ocorrer o contrário e a língua do dominado sobrepor a do dominador, nesse caso tinha-se um superstrato ou ainda, as línguas tanto do dominador quanto do dominado mantinham-se em vigor caracterizando o chamado adstrato. Os substratos são empréstimos inevitáveis às línguas novas, uma vez que não é possível abolir dos falantes uma manifestação linguística, bem como qualquer prática cultural de modo absoluto. Caso particular de influência do substrato é o do português brasileiro, que a priore, proposto como língua oficial do Brasil, apenas como português puro, porém, sofreu forte influência dos substratos das línguas indígenas e africanas, posto que ambas as línguas se mesclaram ao português alterando consideravelmente o idioma oficial, que foi implantado por um processo colonizador, quando o país já possuía uma língua própria (a língua geral) marcadamente indígena. Destarte, a partir desses fatores o português que se fala deixou de ser o português de Portugal apenas, para ser português brasileiro diferente do português luso e daqueles presentes em outros países de língua portuguesa. Diferente, inclusive, foneticamente em razão de grande participação africana. Portanto, o Português Brasileiro (PB) sofreu a influência de povos, sendo eles autóctones e imigrantes que aqui chegaram, instalaram e passaram a impor a sua língua, desconsiderando a existência de uma língua aqui predominante: Tupi. Aponta-se que os fatores sócio-histórico-culturais marcaram fortemente a constituição da língua brasileira.
Coluna: O empreendedorismo feminino: A força varzedense
(*) Marilene Oliveira Parabéns, mulheres varzedenses! Vocês podem muito mais! A força vos pertence! Até o ano de 1989, Varzedo era distrito e pertencia à cidade de Santo Antonio de Jesus/BA, que está a aproximadamente a 18 km deste município – Varzedo –. Nesse mesmo ano, mediante um plebiscito, se emancipou constituindo-se cidade. A sua economia é basicamente a agricultura e a pecuária. Limita-se com os municípios de São Miguel das Matas, Castro Alves, Laje, Conceição do Almeida e Elísio Medrado e fica situada a 200 km da capital baiana. Sua população, segundo o recenseamento do IBGE de 2010 é de 9.109 habitantes, a maioria pertencente a zona rural, sendo que, o número de homens é superior ao número de mulheres. No que diz respeito às mulheres varzedenses, estas têm se destacado no contexto sócio-econômico local, uma vez que são elas que lideram esse cenário. Empreendedoras por excelência, atuam nos seus estabelecimentos comercias, demonstrando grande capacidade em administrar, sem mesmo terem feito um curso universitário em Administração de Empresas. São exemplos de força, determinação, progresso e quebra de paradigmas patriarcais, sem perderem de vista, o seu papel de mães, esposas e até mesmo donas-de-casa. Além das empreendedoras, pode-se elencar muitas varzedenses desenvolvendo funções diferenciadas: secretária da educação, secretária da saúde, policial, dentista, líder religiosa, diretoras e vice-diretoras escolares, frentistas, cabeleireiras, professoras etc. Nesse contexto, destaca-se que muitas delas são jovens, porém, muito competentes e responsáveis nos afazeres. Como afirma Michelle Perrot: “Elas estão presentes aqui e acolá”. Essa conquista profissional é resultado da capacidade feminina e da força que emerge das suas entranhas. No passado, a sociedade determina o tipo de profissão cabível para a mulher, hoje, é possível que ela exerça profissões que antes competiam apenas aos homens. Sabe-se que, durante muito tempo – até o século XIX –, a sociedade patriarcal negou à mulher o direito de exercer tarefas seculares; o trabalhar em outros espaços, além do doméstico, significava o não cumprimento do seu papel de mãe, esposa e consequentemente, o de dona-de-casa. Cogitava-se o exercício do magistério, por ocupar apenas um turno e, no outro, a mulher estaria em casa. Paulatinamente a mulher começou a promover grandes mudanças na sociedade patriarcal, passando a representar um divisor de águas – silêncio versus discurso –. O estigma de fragilidade aos poucos foi se modificado, pois mostrou-se cada vez mais determinada, livre e atuante nos variados espaços sociais. Já o século XX representou um período de muitas rupturas e inquietações no universo feminino. A mulher começou a experimentar muitas conquistas e visibilidade, graças ao Movimento Feminista. Ecos do silêncio gritante tornaram-se fortes vociferações, que passaram a ser ouvidas em toda a sociedade da época. Ela – a mulher – travou intensas lutas em prol de direitos políticos e civis igualitários, que até então, pertenciam exclusivamente ao homem. A figura masculina foi descentralizada e a mulher assumiu uma nova postura social. Vale ressaltar, a importância da baiana Leolinda Daltro teve uma grande importância no cenário feminino, ao criar o Partido Republicano Feminino, cuja finalidade era movimentar as mulheres quanto a adesão deste, assim como, a Associação Feminista, que visava o apoio nas greves operárias ocorridas em São Paulo, precisamente em 1918. As mulheres apoiaram massivamente essas duas instituições, por se configurarem como suas grandes parceiras na luta por igualdade. “A luta continua”!
Coluna: Literofobia
Uma paciente chamada Literofobia foi levada a escola-hospitalar da sua cidade. Encontrava-se muito adoentada. O mal era sedicioso, pois não se tratava de uma doença comum, o que deixou o educador-médico muito preocupado. Ele buscou ajuda junto a uma conceituada equipe educacional. Após vários dias de estudos e uma série de exames educacionais, chegou-se ao seguinte laudo: a paciente apresenta RAQUITISMO, pois nos seus primeiros anos escolares não foi bem alimentada com a leitura. Os seus MAXILARES são desproporcionais, prejudicando a sua dicção, uma vez que na sua infância, não desenvolveu o hábito da mastigação de palavras, frases e textos. Apresentou sintomas de ARTRITISMO, pois não gosta de escrever e exercitar as suas articulações. Ressaltou-se os diversos problemas estomacais, porquanto, não pode digerir bem o que ler. Há presença de ARRITIMIA já que o coração da paciente pulsa descontroladamente, dessa forma não consegue se concentrar durante as leituras e assim, não apreender as informações com clareza e eficiência. Apresentou GLOSSOFOBIA quando é convidada para fazer leitura de textos em público, revela fortes sinais de palpitações, nervosismo e transpiração, de tal modo que, há grande possibilidade de desenvolver DOENÇAS CARDÍACAS acompanhadas de fatores de riscos imutáveis, caso a paciente não se esforce para vencer o problema da METATESIOFOBIA. Constatou-se DOENÇAS CRÔNICAS RENAIS, já que não consegue filtrar as informações recebidas, inclusive muitas de alguns programas de TV; as absorvem sem questionar aquelas duvidosas e incoerentes, fator responsável que contribui progressivamente para o desencadeamento da OBSEDADE comportamental. Foi preciso fazer também o exame oftalmológico, que revelou alto grau de MIOPIA, dessa forma sua visão de mundo é restrita, limita-se apenas ao que ouve de terceiros. A equipe médica ainda diagnosticou a AERODROMOFOBIA, sendo que a paciente sente medo de viajar nas asas do livro nem se encanta com as suas histórias. Averigou-se ELEUTOROFOBIA, já que a paciente prefere se manter presa aos seus dogmas, não quer se libertar dos seus preconceitos. Para agravar o seu quadro de saúde educacional, nota-se a presença de FRONEMOFOBIA uma grande preguiça de pensar. A sua intelectualmente está afetada e estagnada, seguida de GNOSIOFOBIA, teme o conhecimento. Ela é vitima de HEDONOFOBIA, tem medo de sentir prazer ao ler um livro, prefere utilizar o seu tempo com coisas supérfluas. Também apresenta IDEOFOBIA, é totalmente desprovida de ideias. Sente pânico às letras, pois é sequelada pela LITEROFOBIA. E se tratando da leitura poética, há forte indício de MOTROFOBIA, pois apresenta pavor a textos poéticos. Estudos detalhados seguidos de pesquisa revelaram que, a doença é GENÉTICA, os seus familiares nunca adquiriram um livro, não gostam de ler, preferem passar boa parte do tempo em frete ao televisor, que às vezes atinge o sistema moral, intelectual, emocional e espiritual. Toda a junta médica educacional está totalmente envolvida na tentame de sanar esse terrível problema, que afeta muitas pessoas, dentre elas, as crianças e os adolescentes. O tratamento é lento e processual. Nunca deve ser interrompido e recomenda-se uma alimentação ligth, à base de leituras divertidas, interessantes, intrigantes e instigantes, que despertem o interessa da paciente e estimule o seu metabolismo. Evitar os “enlatados”, alguns programas de TV, principalmente, aqueles que não transmitem informações construtivas, que não formam indivíduos intelectualmente sadios, apesar de serem digeridos mais facilmente e não exigirem muito conhecimento dos telespectadores.
Imprensa: A voz da sociedade
(*) Marilene Oliveira Parabéns, Voz da Bahia, pelo seu trabalho em prol da sociedade! Pensar na historia do Brasil é pensar antes de tudo na importância da imprensa, seu papel decisivo nos acontecimentos políticos, econômicos e sociais ocorridos no contexto colonial. Mesmo diante da “lei do silêncio”, a imprensa jamais foi omissa aos fatos. Acredita-se que ela instigou as transformações sociais, incentivou o povo a lutar pelo ideário de independência. Luca e Martins (2008, p. 8), afirmam que, “[a] nação brasileira nasce e cresce com a imprensa. Uma explica a outra. Amadurecem juntas. Os primeiros periódicos iriam assistir à transformações da Colônia em Império e participar intensamente do processo. A imprensa é, a um só tempo, objeto e sujeito da história brasileira”. A imprensa marca decisivamente o período sócio-histórico vivenciado aqui no Brasil no Regime Colonial. Ora se colocando como objeto, ora como sujeito nesse processo, mas de grande relevância para a sociedade brasileira. Segundo Sodré (1999), a imprensa no período do Império vivia atada, os seus editores sob total observância da Corte e expostos a toda sorte de ameaça e “perigo”. Em virtude desse entrave, Hipólito da Costa[1] resolveu fundar o seu jornal fora do país, a saber, na capital inglesa, alegando a perseguição e os perigos da censura aqui no Brasil, precisamente no começo do século XIX. “No que se refere à imprensa brasileira, é fácil hoje compreender como a restrição à sua liberdade interessava às forças feudais européias, à metrópole lusa e seu governo [...]” (SODRÉ, 1999, p. 44). O fazer jornalístico de Hipólito trazia matérias que certamente iriam de encontro aos interesses dos senhores feudais, já que ele criticava o regime escravocrata e, na oportunidade, apontava as máquinas como recursos para acabar como o trabalho servil. Conforme Paulo Alberto, assinante do jornal O Palladio (1942, p. 2), “[n]o Brasil, é incontestável o serviço que a imprensa tem prestado à soberania dos princípios democráticos e à defesa da liberdade e da proteção à justiça”. O jornalismo pode ser considerado como “a voz da sociedade” e deve estar antes de tudo, comprometido em denunciar, informar, criticar, elogiar, etc. Segundo Sodré (1999), o Diário Constitucional foi o primeiro periódico a circular na Bahia em 4 de agosto de 1821. Seus conteúdos estavam voltados para os interesses do povo brasileiro, rompendo o paradigma da imprensa áulica, que se encontrava embasada em um jornalismo comum e rotineiro. Em 10 de maio de 1822, sofreu alteração no seu título, passando a ser chamado apenas de O Constitucional, pois não se configurava mais como diário. “O Constitucional era o único periódico que se atrevia a lançar em rosto daqueles tiranos sua arbitrariedade, sua injustiça, sua barbaridade” (SODRÉ, 1999, p. 52). Assumir a postura desse jornal não era uma tarefa fácil, pois significava afrontar as autoridades “poderosas”. Foi um ato heróico e corajoso do seu editor, que não temeu pagar, até mesmo com a própria vida, por esse seu trabalho. Quanto à Imprensa Régia, ela detinha o poder, o seu trabalho de impressão era muito caro, estava restrito a poucas pessoas, destinava-se apenas a grupos seletos, como os comerciantes. De acordo com Morel (2008, p. 31), “[a] própria Impressão Régia não pode ser considerada apenas divulgadora de papéis oficiais, pois desenvolveu ampla e complexa atividade tipográfica, tornando-se a primeira editora a funcionar em território brasileiro”. Paulatinamente foram surgindo outras tipografias no Rio de Janeiro: “[...] a Nova Tipografia e a de Moreira e Garcez” (SODRÉ, 1999, p. 36). E, continuamente, novas Tipografias foram se instalando no Brasil. Por meio de Carta Régia, em 1811, Manuel Antônio da Silva Serva conseguiu o consentimento que lhe outorgava o direito de funcionamento para a sua tipografia. “Depois da revolução do Porto, apareceram outras oficinas: o processo da independência se acelerava, com o regresso da Côrte a Lisboa [...]” (SODRÉ, 1999, p. 36). A imprensa sempre foi vista por muitas pessoas como um veículo imprescindível de comunicação, capaz de alterar/modificar a história de um povo, de uma nação. Parabéns ao Voz da Bahia e a toda a sua equipe, pela conquista merecida desse título e pelo brilhante trabalho em prol da sociedade, sempre se posicionando de forma imparcial, responsável e verdadeira. [1] Hipólito da Costa – Fundador, dirigente e redator do jornal o Correio Brasiliense,em Londres. Sodré, 1999, p. 26.
Em memória a imprensa Santantoniense do Século XX: O Jornal O Palladio
(*) Marilene Oliveira O poeta, fundador e proprietário do jornal O Palladio, Antonio Mendes de Araujo – Antonio Mendes – nasceu na cidade de Maragogipe/BA, em 1872. Teve uma rápida passagem no jornal O Combate, no início da sua publicação. Ainda em Conceição do Almeida/BA, já trabalhava em um periódico. Mudou-se para Santo Antonio de Jesus/BA e fundou o jornal O Palladio. O jornal O Palladio foi instituído em 15 de novembro de 1901 e tratava-se do periódico semanal de maior circulação na Bahia. Era produzido em chapa de chumbo – oficina própria –, impresso em máquina rotoplana “Diamant” e exigia muita habilidade e atenção dos tipógrafos. Durante toda a sua existência, O Palladio sempre se colocou como uma mídia valiosa para a sociedade baiana. Noticiou acontecimentos regionais e internacionais, a exemplo da primeira guerra-mundial ocorrida entre os anos de 1914-1918, os acontecimentos locais da vida privada de pessoas públicas, a morte do grande romancista baiano Xavier Marques, a implantação de um banco do Distrito Federal em Santo Antonio de Jesus/BA, a possível invasão dos alemães ao Brasil, dentre outros acontecimentos importantes. Contou com vários colaboradores de destaque da sociedade santoantoniense, a exemplo dos professores Rômulo Almeida, Isaias Alves, fundador da Faculdade de Filosofia da Bahia, o poeta Silvestre Evangelista e do escritor Fernando Pinto de Queiroz, membro da Academia de Letras de Feira de Santana. O Palladio foi um jornal consistente, conseguiu se destacar dentre outros jornais, tais como: A Tribuna, O Combate, Actualidade, além do seu grande concorrente, o jornal A Tarde. Para viabilizar o trabalho de impressão, Araujo conseguiu junto ao governo Goes Calmon, máquina e material novo. Era um jornal sem fins lucrativos, sobrevivia apenas mediante o apoio dos seus assinantes. Agamenom Magalhães, um dos seus assinantes, em nota ao referido jornal – edição de 1942 –, escreveu: “O jornalzinho do interior não tem publicidade paga. Não ganha. A sua é, porém, a função do jornal – informar, orientar, defender o regime e o interesse público”. Para Agamenom Magalhães, O Palladio representava um grande parceiro da população e ele acreditava na seriedade desse veículo de comunicação. E vai além: “quem sabe se a imprensa matuta não acabará por reformar com o rigor e beleza de sua orientação, a imprensa das capitais? Não creio na máquina, sem o nervo e o pensamento. Não creio na máquina, sem o homem”. O Palladio exerceu forte influência sobre a vida de muitos baianos, que o consideravam de suma importância para a sociedade. Em nota ao O Palladio, o leitor Agamenom Magalhães se referiu a esse jornal chamando-o de “jornalzinho”, não de forma pejorativa, acredita-se que de maneira íntima e carinhosa, ao afirmar que: O jornalzinho que no interior resiste ao rádio, ao automóvel e à técnica da circulação instantânea das notícias e do pensamento, dos fatos e dos acontecimentos mais distantes, e não cede o seu lugar, nem perde a sua influência local, é o testemunho de uma tradição e de uma cultura que não morreu, é o espírito das cidades sempre aceso, como um fio das lamparinas nos santuários humildes. Tenho grande admiração por esses jornalzinhos. Leio todo o número que me chega às mãos. Segundo a visão desse leitor, O Palladio foi de grande relevância naquele período, mostrando o seu valor social e cultural. Antonio Mendes foi um homem habilidoso e diligente, e assim conseguiu fazer com que esse jornal sobrevivesse por mais de 50 anos. No dia 30 de maio de 1952, ao completar 80 anos, Antonio Mendes de Araujo faleceu. Depois do seu falecimento, o jornal foi desativado pelo seu filho, o bacharel Uranio, e todo o maquinário foi deixado em um museu, onde não era permitida a visitação pública.
O livro: elemento imprescindível para a difusão do saber e transformação da sociedade
(*) Marilene Oliveira A imprensa sempre foi um veículo de divulgação do livro, embora enfrentasse sérios problemas de censura no período colonial, já que havia enorme preocupação das classes dominantes quanto à propagação do livro, pois poderia gerar novos conhecimentos nas classes dominadas, o que representava ameaça à elite que detinha o poder. Ressalta-se o papel da maçonaria na disseminação de doutrinas revolucionárias, de tornar públicos os livros que, nesse período, tinha a sua circulação proibida. Apenas os livros de cunho religioso recebiam enfoque, revelando o poderio da religião, representada pela Igreja Católica. Na primeira era moderna, especificamente na escola tradicional, a aprendizagem acontecia apenas mediante “um livro de preces ou um caderno solto” (CHARTIER, 2001, p. 74). O que faz crer que esse tipo de aprendizagem era extremamente limitada, até porque formar uma população intelectualmente esclarecida não era a intenção da Igreja nem do Estado. O livro no Brasil, de acordo Sodré (1999, p. 11), era visto como “[i]nstrumento herético [...]” entre os indivíduos comuns, apenas no poder dos religiosos não representava nenhum tipo de ameaça à elite. As bibliotecas aqui existentes na época estavam restritas aos mosteiros sob aguarda dos religiosos. Quando da expulsão pombalina, os livros sequestrados pertencentes à biblioteca dos jesuítas – Bahia –, por se encontrarem em estado de decomposição, passaram a ser utilizados pelos comerciantes, denominados – boticários – “para embrulhar adubos e unguento” (Idem, p. 12). No Regime Colonial, o livro estava sob as ordens da Corte e passou a ser fiscalizado severamente, já que representava perigo ao Estado. De posse dos livros, os indivíduos adquiririam conhecimentos que consequentemente poderiam ser usados contra as classes dominantes. Para os líderes, quanto mais às pessoas permanecessem na escuridão do pensamento melhor seria. “A abertura das mentes era facilitada pelo acesso a obras proibitivas por serem tão raras e caras, além de literalmente proibidas pelo próprio obscurantismo da Coroa Portuguesa” (LUSTOSA, 2000, p. 24). Um fator relevante para a considerável entrada de impressos – livros – no país aconteceu graça à abertura do Porto. Mediante apoio do governador Luiz de Rêgo e em função do movimento portuense, acontece a divulgação do primeiro periódico brasileiro. Vale ressaltar que não demorou muito para, mais uma vez, o cerco se fechar contra os livros ou qualquer outro material impresso, que só poderiam entrar no Brasil mediante uma severa fiscalização da alfândega e conforme permissão do desembargador do Porto. Muitos livros, na verdade, entravam no país de forma clandestina Apenas os livros de conteúdo que não representasse nenhum tipo de reflexão poderiam circular normalmente entre as pessoas. “Os bons livros, os livros autênticos, entravam de contrabando” (SODRÉ, 1999, p. 14). A propagação de livros de caráter crítico-reflexivo não era de interesse algum da sociedade dominadora, o que justificava a entrada clandestina de muitos deles, já que essa era a única forma do povo ter acesso a uma literatura transformadora.
Enquanto uns choravam, outros sorriam
Em uma cidadezinha do Recôncavo Baiano havia apenas uma funerária para atender a demanda dos defuntos. Houve um período em que muita gente estava morrendo. Que horror! Quase toda semana morria pelo menos uma pessoa. Já acontecerem até três sepultamentos em um único dia. Para uma pequena cidade era um número estarrecedor. Coitado do coveiro! Não tinha mais sossego. Se ausentar da cidade, só se fosse em pensamento! O seu trabalho tinha aumentado e muito. Era um subir e descer a ladeira de acesso ao cemitério. Pensou até em construir uma casinha ali mesmo, ao lado da mansão de todos nós. Às vezes, mal chagava em casa, alguém batia na sua porta, pedindo-lhe para ir cavar outra cova. Quando o solo estava úmido, ótimo para executar o serviço, mas quando demorava para chover, era um sufoco. E, assim, foi a sua rotina por muito tempo. Como a lei da procura era superior à lei da oferta, nas suas poucas horas vagas, o coveiro já ia adiantando o serviço, cavando novas covas. As pessoas supersticiosas não estavam gostando nada disso, começaram a atribuir a razão de tantas mortes ao “agouro” do coveiro. Se não bastasse, uma das paredes laterais do cemitério desmoronou e o local ficou aberto por um bom tempo. Muitos diziam que a porta estava aberta, chamando as pessoas. Esses fatos renderam muita conversa na pacata cidade. As pessoas que participavam de todos os velórios, até ficando mais gordas já estavam, ficando, uma vez que os familiares enlutados servirem bolacha “poca zói”, pão, café e nem mesmo a “pinga” ficava fora desse cardápio. O que deveria ser luto, tristeza, sentimentos fúnebres, tornava-se em uma noite de lazer, bate papo e reencontro de velhos amigos. Os donos dos botequins estavam desesperados, pois não contavam mais com os seus fieis clientes. Era quase impossível encontrar uma flor na cidade. Os jardins não prosperavam mais. Só se viam as mulheres à procura de flores na vizinhança. Eram flores de todas as espécies: dálias, cravo de defunto, rosas vermelhas, rosas brancas e tudo que se assemelhasse com flores. Bom para os donos de mercearias e mercadinhos, pois no dia de finados vendiam uma quantidade exorbitante de velas, dos mais variados tamanhos e marcas, nem mesmo as velas coloridas eram recusadas. O prefeito municipal teve que dobrar o tamanho do cemitério. O pior, não demorou muito e quase todo o terreno já estava loteado e edificadas muitas casas eternas. Vendo que o negócio era lucrativo, um morador dessa cidade, resolveu também apostar no seu sucesso empresarial. Tratou logo de abrir uma funerária. Lucro certo, movimento garantido. Tudo estava conspirando ao seu favor. Em se tratando de funerária, sabe-se que não é um tipo de casa comercial aprazível. Ninguém gosta de frequentá-la. Dessa forma, o senhor X, procurou ser criativo na decoração da loja, adquiriu os mais variados modelos de caixões, para todos os gostos. Digo, gosto dos vivos! Eu pude conferir de perto. Nunca tinha ido a uma funerária, mas quando um primo meu faleceu, fui até lá escolher um “envelope” para ele. Passei um bom tempo examinando os modelos, os detalhes e, por fim, escolhi um, por sinal, muito bonito, todo em madeira talhada. Acho que, se o meu primo tivesse vivo, iria amá-lo. Ah! Já ia esquecendo de um detalhe importante, nem foi muito caro. Era preciso economizar o “dindim” do finado, porquanto tinha outras dividas a serem pagas. Uma pessoa da minha família, comerciante, moradora da cidadezinha e também prima do falecido foi até a funerária efetuar o pagamento do tal “envelope”. O empresário, contente com a “grana” que acabava de receber, disse: - Qualquer coisa que a senhora precisar, é só mandar alguém vier aqui. Estamos às suas ordens. - Deus é mais! Quero distância desse lugar! No meio desse caloroso diálogo, já na saída do estabelecimento comercial, ela “deu de cara” com o filho do dono da funerária e procurou saber como estava o movimento. Ele, como sempre, muito feliz, inconscientemente respondeu: - Você nem imagina. Está um excelente movimento. Graças a Deus a gente tem vendido muitos caixões. A minha parenta fez uma cara de espanto ao ouvir o que o jovem falou. Ele, meio desapontado com a barbaridade que disse, tentou amenizar a situação. - Desculpa, amiga, foi mal. O filho da minha parenta arregalou os olhos e disse: -Ah! Fio de uma mãe, tu parece que é doido! Todos riram da conversa nada engraçada.
Os percalços sócio-histórico-culturais e as conquistas femininas
"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade''. ( Simone Beauvoir)
Ao longo de toda a história da humanidade até o final do século XVIII, a mulher era considerada como um objeto, uma vez que a sociedade sempre a considerou um ser humano passivo, ficando sujeito às ordens masculinas. Um modelo de uma sociedade patriarcal, na qual o homem – chefe da família – era o centro de tudo. A partir do século XIX, a sua participação nos mais variados espaços sociais começou a ganhar corpo, não era mais, apenas, a dona-de-casa que vivia para os seus filhos e para o seu esposo. “Esta mulher é um artigo inflamável cujas reações são temidas pelas autoridades” (PERROT, 2005, p. 212). A mulher despontou-se com uma nova roupagem, uma nova configuração, uma força ameaçadora. Segundo Perrot (2005), contrariando o sistema dominador da época, não se calou, fugiu, não mais aceitou viver sob a “escravidão”, a sua voz se fez ouvir por todos os lugares, passando até a fazer discursos em locais públicos. Por representar “uma “ameaça” ao homem, passou-se a criar espaços puramente masculinos nos quais a mulher era proibida de frequentá-los. Pretensiosa, passou a delimitar o seu espaço, percorreu universos jamais permitidos e conquistou outros ambientes, além do doméstico. “Trabalhadora ou ociosa, doente, manifestante, a mulher é observada e descrita pelo homem” (PERROT, 2005, p. 198). Por que tanta preocupação com a mulher? O que isso significou? Antes um ser humano tão indefeso, tão frágil e tão submisso! Notou-se que ela, “água dormente”, começou a despertar-se, assumindo outro papel, embora ainda um tanto quanto tímida, em função de um contexto sócio-histórico-cultural de domínio exclusivamente masculino. Já na contemporaneidade, são muitos os exemplos de mulheres que são mães, esposas, profissionais, etc. Essa dinâmica do mundo moderno as faz seres humanos tridimensionais. A cada dia elas têm conquistado o mercado de trabalho e se destacado em virtude da sua competência e da sua qualificação profissional. No passado era simples coadjuvante nos espaços profissionais, hoje está assumindo lugar de destaque em muitas empresas nacionais, multinacionais e na política, o que representava apenas privilégio do homem. Não obstante, ocupando o mesmo cargo que um homem ocupa, ainda ganha menos que ele. Oportunizar a mulher as mesmas condições de trabalho e salários igualitários, entende-se como algo justo e necessário. Destarte é dar-lhe o direito que lhe foi negado ao longo da história, oriundo de um contexto histórico excludente que ainda subsiste. Não se pode pensar em uma sociedade democrática e igualitária, onde homem e mulher possuem direitos iguais, se uma categoria é beneficiada em detrimento da outra, dessa maneira, estar-se reproduzindo os ranços da sociedade do passado. Reconhecer as conquistas femininas é algo extremamente valioso, mas infelizmente muitas mulheres ainda são vítimas de vários preconceitos e também de violências, a saber, violência de gênero, violência física, violência sexual, violência psicológica, etc. Quase diariamente a imprensa falada e escrita noticia ocorrências, em que foram brutalmente assassinadas, violentadas e agredidas moralmente pelos seus companheiros, esposos, namorados... É lamentável deparar-se com esse tipo de notícia. Faz-se necessário que esses indivíduos – agressores – se eduquem, se conscientizem e evitem essas atrocidades, para que a lei seja o último recurso a ser aplicado. Infelizmente a mulher ainda carrega consigo um estigma de “coitadinha”, de “frágil”, fruto de uma geração arcaica, ainda reportada de maneira implícita e até mesmo explícita na modernidade. Se não bastassem, há na mídia, letras de músicas nas quais é depreciada. Chega! Chega! As experiências e expectativas vividas pela mulher permitiram que ela chegasse atualmente ao pináculo da esfera sócio-global, vinculando outras vertentes personalizadas da figura feminina. Acredita-se ser esse o momento oportuno para todas as brasileiras conclamarem mais segurança, respeito, proteção à vida e igualdade de diretos, pois pela primeira vez na história política nacional, tem-se na presidência da República, uma mulher – Dilma Rousseff. Em seu primeiro discurso após ser eleita, ela falou para todos (as) brasileiros (as): “Pais e mães podem olhar nos olhos de suas filhas e dizer ‘sim, a mulher pode". As brasileiras “poderosas” do século XXI desejam e esperam da “companheira” a Exma. Srª Dilma Rousseff – presidenta do Brasil –, um olhar mais sensível para as causas femininas. “As mulheres, que força”!
Em uma fria noite de verão
(*) Prof. Marilene Oliveira de Andrade Fim de expediente. Começo de noite. Trânsito congestionado. Pessoas apressadas dirigem-se ao ponto de ônibus. Todos lutam por um espaço. Crianças, adolescentes, jovens, muitos dispersos nas ruas. Talvez, vítimas de uma sociedade desigual. Apática. Sem nenhum medo ou receio, usam, vendem e partilham drogas. Rostos desfigurados, olhares sombrios. Diálogos confusos. Ficam prontos para aplicar o golpe nas pessoas que passam por ali. Ameaçadas por esses sujeitos, algumas reagem. Outras correm. De outras, tudo é levado. Gritos, choros, pânicos, correrias, revoltas, protestos. Valores transgredidos, condutas violadas... Abismo à frente. Olhos vedados. A rua é o mundo. O espaço. O tudo. Observo as cenas. As pessoas. Os atos. O céu está nebuloso. Parece que vai chover. Não demora muito e a chuva cai. O asfalto fica brilhando. Em pouco tempo pequenas lagoas são formadas. Ruas inundadas. Caos total em alguns pontos da cidade. Os carros passam em disparada espirrando aquele líquido contaminado em tudo e contaminando as pessoas que estão por perto. - Mal educado! Seu filho da “p...” alguém grita. A noite fica mais tensa. A chuva não cessa. Ligo o som. O limpador de pára-brisas dança para lá e para cá incessantemente. A visibilidade fica comprometida. Os vidros embaçados. O semáforo fecha. Sinto medo... Fiquei angustiada. Ao redor vejo crianças vendendo balas. Em meio a tudo isso, aproveito a parada para trocar o CD. Preciso ouvir uma música para relaxar. 40, 39, 38... 3, 2, 1. O sinal abre. Alguns motoristas imprudentes e mal educados querem sair às pressas, buzinas, xingamentos, palavrões. Seria tão bom se fôssemos eticamente corretos! Observo os carros a minha frente, cada um segue destinos variados. Para onde estão indo essas pessoas nesse momento? Arrisco um palpite: umas devem estar voltando para casa. Para a sua família. Outras, para o barzinho. Para o cinema... Motel..., talvez. Como é intrigante a diversidade! A chuva está aumentando. Raios começam a cruzar o céu escuro. Estremeço-me. Não tenho muito medo de trovões, mas confesso que não me agradam. Já ouvi casos de pessoas que foram mortas, vítimas de raios. Logo a minha frente vê uma multidão. Pessoas tumultuando o local. Sinto vontade de parar para ver o que está acontecendo. Desisto. Parece ser um acidente e pelo visto, grave, pois há corpo no chão. Será que morreu alguém? Tomara Deus que não! A morte é muito cruel. Não gosto dela. Quero-a bem longe de mim. De repente, a sirene é ativada. O carro dos bombeiros passa em alta velocidade em direção a um hospital que fica a 500 metros do local do acidente. Oxalá que essa vítima consiga ser atendida! Nesse momento recordo-me das pessoas atingidas por “balas perdidas”. Perdidas?! Ou achadas?! Diria, achadas em peitos inocentes, em corações cheios de sonhos, em cérebros geniais. A família enlutada passa a experimentar o sabor amargo dessas balas cruéis. Quem são os culpados? Melhor pensar em outras coisas para não aumentar a minha indignação. Entrarei na próxima rua à direita. Acionarei o controle do portão da garagem e entrarei rapidamente. Tenho medo de ser assaltada. Sequestrada... Assaltada representa uma possibilidade, mas sequestrada, não. Iriam sequestrar uma professora? Só se estivessem bem drogados. Com certeza iriam até mesmo pagar pela minha libertação. Professores ainda ganham muito mal nesse país. Uma profissão tão nobre, educar outros seres humanos. Fico intrigada quando penso que qualquer outro profissional, precisou passar antes por um professor. O que há de errado com esse indivíduo tão mal remunerado? Procuro o controle do portão e vejo que não está ali. Ligo para casa. Rapidamente o portão se abre e estaciono na garagem. Sinto-me mais segura agora. Mais segura. Sim. Não totalmente. O perigo está em toda parte. Preciso tomar um banho e descansar, tirar o “peso do mundo dos meus ombros”. Tive um dia muito cansativo. Compromissos. Compromissos. Uma lista interminável de atividades. A sociedade capitalista dita às ordens: “ser”, “ter” e “poder”. Ser superior ao outro; possuir muito dinheiro e poder controlar o mundo. Para variar ligo a TV, só vejo desgraças por toda a parte. Fome. Guerra. Terremotos. Enchentes. Assassinatos. Parece até que virou moda a violência contra a mulher no nosso país. Choro enquanto contemplo essas cenas esdrúxulas Revolto-me ao mesmo tempo, pois muitos homens são os responsáveis por essas atrocidades. Não suporto desligo a TV e vou ler um pouco, vai me fazer bem. Por hoje chega. Preciso esquentar-me dessa noite fria de verão, pois minha alma parece estar gelada. Apago a luz e vou dormir. Boa noite!
Prof. Marilene Oliveira de Andrade Professora, cabeleireira, poetisa, contista, cronista, membro da Academia de Letras do Recôncavo, Licenciada em Pedagogia, Letras Vernáculas e Especializando em Estudos Linguísticos e Literários.
Por uma consciência nacional: Relação Homem e Sociedade
(*) Prof. Marilene Oliveira de Andrade O Brasil é considerado o melhor do mundo no futebol, já conquistou cinco títulos. Realmente é muito bom, nos deixa orgulhosos, somos cinco estrelas, brilhamos mundialmente. O carnaval é outra atração que encanta multidões e atrai milhares de turistas estrangeiros; possuímos uma das maiores riquezas naturais, a Floresta Amazônica, com a sua rica biodiversidade, que desperta a cobiça de muitos países. Temos a maior reserva de água doce do planeta. Quantas coisas imponentes! Até aí, tudo é muito lindo e maravilhoso. Não podemos esquecer que é também o país do contraste. Há um número exorbitante de pessoas que vivem em condição subumana, excluídas da sociedade. A fome, o desemprego, a violência, o analfabetismo, a falta de moradia, a desigualdade social, têm obscurecido a tão bela imagem esculpida do nosso país. Diariamente somos surpreendidos por cenas que jamais gostaríamos de ver: pessoas buscando a sobrevivência nos lixões, disputando restos de alimentos com os ratos, com os urubus, com os cães. Essa cruel realidade é muito bem descrita pelo poeta Manoel Bandeira no seu poema O bicho, ao afirmar que tinha visto um bicho na imundície do pátio, catando alimento e quando o achava, sem que o examinasse, o devorava com toda voracidade. Para a surpresa do poeta, não se tratava denotativamente de um bicho, um animal. Surpreendentemente concluiu: O bicho, meu Deus, era um homem. Quantas pessoas hoje não vivem nessa mesma condição? E as nossas crianças? Muitas delas não têm o direito de viver a sua infância, logo cedo abandonam a escola, ou mesmo nunca a frequentaram, pois precisam trabalhar para ajudar as suas famílias. Que futuro as espera? Precisamos mudar essa realidade! Estamos imersos numa sociedade capitalista em que a divisão de bens sofre diferenciações gritantes, gerando a dicotomia entre exploradores e explorados, numa relação de oprimidos e opressores. O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1997), no seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos das Desigualdades entre os Homens discute a respeito da desigualdade moral ou política, resultado de uma analogia na qual alguns indivíduos usufruem de vários benefícios, enquanto outros permanecem em situação desprivilegiada. Outro problema sério diz respeito à saúde pública. Diariamente temos filas quilométricas nos hospitais, pessoas que vão à busca de atendimento médico, muitas morrem ali mesmo ou voltam para casa insatisfeitas e sem a menor esperança de terem o seu problema resolvido. As condições precárias das unidades hospitalares, a falta de medicamentos, equipamentos e profissionais da área, têm contribuído para que a saúde encontre-se na UTI. As autoridades competentes afirmam que faltam recursos para maiores investimentos na saúde. Porém, o Brasil é o país que arrecada a maior carga tributária do mundo, entretanto, onde está o dinheiro público? Em que está sendo usado? Rousseau assegura que, seria bom se o homem permanecesse no estado de natureza, pois gozaria de plena saúde, das forças físicas, bem como, desfrutaria das qualidades do espírito e da alma. O homem no estado de natureza ou natural é considerado um homem feliz. Nossa sociedade tem vivenciado uma série de problemas, há um despautério assustador, cresce demasiadamente o número, principalmente de jovens e adolescentes que adentram no mundo das drogas, do crime, da prostituição; jovens sem perspectivas de vida, sem sonhos. Cadê os nossos jovens políticos, que nas suas campanhas defendem políticas de valorização da juventude? Não podemos fechar os olhos para as causas sociais. Dados alarmantes revelam que há na rua, milhares de bandidos, aterrorizando a população, praticando crimes hediondos, assassinatos, tráfico de drogas. Nas cadeias superlotadas, as pessoas já perderam a sua identidade de cidadão. E o que nos deixa mais intrigados ainda é sabermos que essas pessoas gastam mensalmente dos cofres públicos quantias demasiadas para o seu sustento. Aí está parte dos nossos impostos! Precisamos repensar e intensificar alternativas que possibilitem a essas pessoas, um futuro promissor. Ouvimos sempre falar de novos presídios construídos e reformados, pois as cadeias não comportam mais a superlotação. Qual a razão dessa trágica realidade? Esses indivíduos não escolheram nascer delinqüentes. Se fossem construídas mais escolas, não seria uma maneira de mudar essa realidade que tanto nos angustia? Se fossem oferecidas mais oportunidades para os jovens, não evitaríamos parte desses problemas? É mais fácil educar crianças do que manter homens encarcerados. O Estado gasta por mês valores altíssimos com um presidiário, no entanto, para uma criança que precisa de muitos cuidados, como uma alimentação adequada e educação de qualidade, são destinadas uma mísera quantia. Que paradoxo revoltante! O dinheiro utilizado na educação não é para ser visto como despesa, porém, como um dos mais nobres investimentos do país. Precisamos repensar essa questão tão importante para a nossa sociedade. No Brasil não existe guerra com tanques, mísseis, bombardeios, mas cotidianamente morrem muitas pessoas, vítimas de balas perdidas, de tiroteio entre policiais e bandidos. Uma guerra não declarada! O que efetivamente, nós brasileiros estamos fazendo para minimizar esse problema de ordem nacional? Não podemos continuar omissos a essas questões, somos todos responsáveis, direta e indiretamente. Questões que merecem um olhar mais atento dos nossos lideres políticos. A educação pública brasileira ocupa uma das piores posições mundiais. Sabemos que mediante a intervenção do processo educacional, o sujeito poderá conquistar a sua emancipação, se livrar dos dogmas elitistas, mudar de postura e intervir positivamente no meio ao qual está inserido. Mediante essas reflexões, por que a educação encontra-se tão mal no país? Investir num firme projeto educacional é despesa supérflua ou ameaça ao elitismo? O sistema não tem medo de um pobre com fome, mas de um pobre que sabe pensar. Reconhecemos o quanto a educação é fundamental para a formação de um sujeito pensante, critico, reflexivo e autônomo. Os nossos professores, em troca do seu digno e árduo trabalho, recebem um salário insignificante. Entendemos que representam uma categoria que poderia ser muito mais valorizada, pois a função que ocupam é de uma responsabilidade imensurável por atuarem diretamente na formação de seres humanos. O que nós brasileiros esperamos no século XXI não é apenas ser hexacampeões sediar a copa do mundo em 2014, atingir records de exportação mundial, atrair mais investimentos para o país, fechar negociações políticas, comungar do acordo ortográfico. Queremos que a dignidade humana seja resgatada, crianças vivam plenamente a sua infância, jovens possam desfrutar de melhores condições de vida com direito a mais acessibilidade às universidades públicas e que o nosso voto faça valer de verdade. Esperamos, de fato, que o nosso país se liberte dos seus passos claudicantes, acorde do sono indolente e que os nossos representantes políticos, as nossas vozes, estejam mais atentos às questões sociais que tanto nos afligem e nos incomodam. Enfim, esperamos recolorir o nosso verde-amarelo que muito nos engrandece, pois brasileiro não desiste nunca.
Prof. Marilene Oliveira de Andrade Professora, cabeleireira, poetisa, contista, cronista, membro da Academia de Letras do Recôncavo, Licenciada em Pedagogia, Letras Vernáculas e Especializando em Estudos Linguísticos e Literários. ![]() |
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