ArtigosJaciara Santos
Cliente perde tarifa social por falta de informação da TWB
Se você possui um cartão recarregável Sibe (Sistema de Bilhetagem Eletrônica) da TWB e se beneficia com a tarifa social - isenção de pagamento no retorno, no mesmo dia, para quem faz a primeira viagem de ferry boat entre 5h e 6h – , precisa ficar atento para poder usufruir desse benefício plenamente. É que, se no intervalo das viagens, fizer alguma atualização de créditos, como recarga ou verificação de saldo, a isenção vai para o ralo. Ou, mais exatamente, para os cofres da operadora. Mas digamos que essa operação constitua uma falha do programa, não observada durante sua instalação. Pois sim! Quanto esse “descuido” rende diariamente à TWB? Pela tarifa atual, cada incauto contribui com R$ 3,95 para o mealheiro da empresa. Mais importante: por que o cliente não é advertido quanto a esse detalhe? Nem um cartaz, nem um aviso, nem qualquer observação por parte de atendentes da bilheteria. Pelo contrário. No item 3 da cartilha em que explica o que é e como usar o Sibe, a operadora descarta a existência de restrições associadas à recarga: “Não existe qualquer restrição, seja de quantidade mínima de créditos para recarga, período para utilização ou prazo de validade dos créditos”, diz o manual. Agora, leia a Resolução nº 22, publicada no Diário Oficial do Estado de 28 de dezembro de 2007, documento que institui o Sistema de Bilhetagem Eletrônico no âmbito da TWB. Nem uma única linha, nem um único aviso sobre a perda do benefício em caso de recarga. Veja também o que diz o Artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990: “O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos“. Resta saber o que pensa disso a Promotoria de Justiça do Consumidor do Ministério Público do Estado.
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas.)
A macabra dança dos números
(*) Jaciara Nunes Ao contrário do que deixa transparecer o governo do Estado, com uma taxa de 53,51 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, Salvador e região metropolitana (RMS) não têm o que comemorar. O índice supera a taxa nacional (22 para 100 mil) e fica muitíssimo acima do limite aceitável segundo os parâmetros da Organização das Nações Unidas (ONU), que é de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes. Apesar desse fiasco, o governo do estado prefere jogar para a plateia. Mostra o que interessa – a ligeira redução nos índices de homicídios dolosos na capital e RMS – e protela a divulgação de assuntos incômodos, como a elevação nos dados referentes a roubo de veículos, por exemplo. E no interior do estado, como andam as estatísticas referentes a crimes contra a pessoa? Tem mais. O fato de Salvador ter reduzido as ocorrências de homicídios em quase 13 pontos percentuais não impressiona. Alguma relação direta com o aumento nesse tipo de crime nas cidades vizinhas? Quem assistiu ao filme Tropa de Elite (primeira versão) pôde ver como, às vezes, nem sempre as estatísticas são o que parecem ser: numa cena em que a ficção se aproxima da realidade, uma guarnição policial desova um cadáver fora de sua jurisdição para maquiar os números referentes à violência. Um total de 2.037 homicídios dolosos em um ano é um número expressivo: quase 170 por mês, quase seis por dia. Isso, admitindo-se que todos os crimes de morte tenham sido notificados e devidamente registrados pela SSP-BA. E desses, quantos tiveram a autoria determinada? Quantos desses autores foram indiciados, denunciados e aguardam julgamento perante um júri popular? Quando busca explicar os números astronômicos da violência na Bahia, o governo tem um discurso pronto: trata-se de uma consequência direta do tráfico de drogas, mais especificamente da epidemia que configura o vício do crack. Que o narcotráfico tem influência no aumento da criminalidade é indiscutível. Mas não é o único fator. A certeza da impunidade e a falta de oportunidades para crianças e jovens são outros dos ingredientes desse caldo de cultura em que viceja o crime. Enquanto isso, assistimos a mais uma encenação em que novos atores recitam textos velhíssimos Não é a primeira vez que um gestor da SSP-BA comemora uma modesta redução no índice de homicídios, esquecendo que, quando se trata de morte (e morte violenta) não há o que festejar. Afinal, se para as autoridades, a dança dos números é motivo de júbilo, para milhares de pessoas, trata-se da perda de filhos, pais, irmãos, amigos. Não de uma, mas de 2.037 vidas humanas.
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas.
Calem a boca, jornalistas!
Em 1980, repórter do hoje extinto Jornal da Bahia, eu acompanhava visita do então governador Antonio Carlos Magalhães às obras de construção da Paróquia Nossa Senhora dos Alagados, na Península Itapagipana, uma das áreas de Salvador que, à época, simbolizava a pobreza extrema na cidade. O templo, em estilo contemporâneo e com acabamento em tijolinho aparente, foi construído em três meses para ser inaugurado pelo Papa João Paulo II, quando de sua primeira visita à Bahia, em julho daquele ano. Estava bem próxima ao governador, quando ele respondeu com uma cotovelada à pergunta de uma repórter da TV Itapoan, do seu arqui-inimigo Pedro Irujo. Não recordo o que a moça perguntou ao velho mandatário, mas jamais esquecerei a expressão dele: imperturbável, manteve no rosto o característico sorriso com que costumava obsequiar seus seguidores. Jovem e inexperiente – não passava de uma “foca”, como se diz no jargão jornalístico – fiquei chocada com a cena. Na categoria, o sentimento era de indignação. Protestamos, lançamos manifestos, vociferamos contra o estilo truculento do governante, que usava a força para tentar calar a voz da imprensa, num claro atentado às liberdades democráticas. A roda do tempo girou. Ano passado, no finalzinho do segundo mandato, o presidente Lula que adquiriu popularidade por conta de sua relação amistosa com a mídia, engrossou a voz. Sem cerimônia, começou a cuspir no prato em que comeu anos a fio. Em meio a disparos verbais, passou a pregar sua convicção de que o mensalão (o denunciado esquema de compra de votos de parlamentares capitaneado pelo então chefe da Casa Civil, José Dirceu) nunca existiu. Tudo era obra de ficção, plantada no noticiário pela oposição e que tinha como única finalidade apeá-lo do Palácio do Planalto. Seriam futricas da imprensa marrom, instrumentalizada pelas elites inconformadas com a ascensão de um proletário ao poder. Poucas foram as vozes que saíram em defesa dos jornalistas. Num silêncio cúmplice, militantes que duelaram contra ACM & Cia, fizeram-se surdos-mudos. Há pouco mais de uma semana, deputada federal que tem no DNA o condenável hábito de receber mimos de origem inconfessável, foi inocentada por seus pares na Câmara. Num ato coletivo de cumplicidade, velhas ratazanas e aprendizes de ratinhos passaram a mão pela cabeça da colega (ou seria comparsa?) flagrada com mãos, pés e corpo inteiro numa polpuda botija. E o que fez Sua Excelência, após levantar e sacudir a poeira? Seguindo exemplo paterno, lacrimejou (como chora essa família!) e culpou a mídia por suas peraltices. Como saiu publicado em vários veículos país afora, a agora respeitável parlamentar acusa os jornalistas por seus infortúnios e diz que teve a honra atacada de forma vil… Neste final de semana, depois de vários ensaios, o Partido dos Trabalhadores finalmente aprovou o que, na prática, é a reedição da censura no Brasil. Sob o eufemismo de “marco regulatório para a mídia”, a proposta apresenta como justificativa o seguinte arrazoado: “A inexistência de uma lei de imprensa, a não regulamentação dos artigos da Constituição que tratam da propriedade cruzada de meios, o desrespeito aos direitos humanos presente na mídia, o domínio midiático por alguns poucos grupos econômicos (que) tolhem a democracia, silenciam vozes, marginalizam multidões, enfim, criam um clima de imposição de uma única versão para o Brasil”. Mas por que somente agora, quando estão na condição de vidraça, os companheiros que sempre foram estilingue sentem a necessidade de impor limites à atuação dos jornalistas? O que seria do país se a mídia não tivesse denunciado as relações perigosas entre o ex-presidente Collor e o empresário PC Farias? E como teríamos descoberto o chamado escândalo do painel eletrônico envolvendo o ex-senador ACM e o então líder do governo na Câmara, deputado José Roberto Arruda (PSDB-DF)? E quanto aos passeios de governadores em jatinhos de empresários-clientes do governo? E sobre os desvios de verbas ministeriais para campanhas políticas? Viciados em hipocrisia, separamos o que é ético e o que não é, conforme nossas conveniências: potentes holofotes sobre os adversários e vista grossa para os atos de exceção dos companheiros que formam o autoproclamado “governo mais republicano da história do país”. Aquele mesmo que quer pôr uma mordaça na mídia, evitando que a sociedade tome conhecimento dos descalabros tramados nos subterrâneos do poder. Voltemos a mais uma história do senador ACM. Essa eu não presenciei, mas foi reproduzida exaustivamente em alguns veículos de comunicação, em mídias alternativas e está contada no livro “Cale a boca, jornalista!”, de Fernando Jorge, uma obra indispensável para estudantes, professores, escritores, jornalistas e historiadores. Eleições de 1986. Então ministro das Comunicações, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães mantém a tradição de votar no Clube Bahiano de Tênis, a poucos metros da casa dele. Apesar da claque montada por correligionários, é recebido com muitas vaias. Escalado pela TV Itapoan para cobrir o pleito, o repórter Antônio Fraga trava com ACM o seguinte diálogo. - Ministro, por que a sua presença provoca esta confusão? - Quem faz a confusão é a sua mãe - Como o senhor recebeu as vaias? Antonio Carlos disse que as vaias não eram para ele e sim para Pedro Irujo, um “basco ladrão”, dono da TV Itapoan. Irujo apoiava a candidatura de Waldir Pires ao governo da Bahia e era contra o Josaphat Marinho, candidato de Toninho. Abaixo, a reprodução do resto da conversa entre ACM e o jornalista: - Mas até o senhor chegar estava tudo calmo. - Não me provoque… E você é muito mal-educado! Pedro Irujo é um basco ladrão, entendeu? Nesse instante, Antonio Carlos se encoleriza ainda mais e ruge: - Faça o favor de respeitar o ministro, seu filho da puta! Mas, esqueçamos o passado. Miremos o futuro. Imaginemos o Brasil daqui a 20 ou 30 anos com a mídia amordaçada. É isso mesmo o que desejamos para as próximas gerações? Queremos transformar o país em mais uma republiqueta dessas que povoam o mapa da America Latina? Não creio. Certamente, não era com isso que sonhávamos quando íamos à praça pública denunciar a truculência do velho senador.
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas.
Respostas Erradas
(*) Jaciara Santos Na sexta-feira (19) a cúpula da polícia baiana convocou a mídia para anunciar a elucidação de dois crimes que, recentemente, chocaram a opinião pública. Um, pela notoriedade da vítima (o assalto e tentativa de homicídio sofridos pelo músico Paulo César Perrone, 32 anos, baterista da banda Estakazero); outro, pela brutalidade da ação (o estupro seguido de assassinato da jovem Adriane Mello, 16 anos). Perrone foi baleado na cabeça, em Salvador, no bairro do Caminho das Árvores, em 16 de julho; Adriane foi morta em Vila de Abrantes, distrito de Camaçari-BA, em 29 de junho. O açodamento que caracteriza investigações desse tipo logo se manifestou. Cinco dias depois do ataque ao músico, a polícia apresentou José Hilton Santos, o Neguinho, e Fabrício Santos como os supostos autores do crime. Eles não são santos, como atestam seus antecedentes criminais e as circunstâncias em que foram presos. De acordo com informações oficiais, a dupla foi capturada logo depois de uma “saidinha bancária”, a mesma modalidade de assalto praticada contra Perrone. Os dois negaram envolvimento no caso, mas, como sempre acontece, logo apareceu uma “testemunha” que os colocava na cena do crime, mediante reconhecimento facial. A roda do tempo girou, e, sabe-se lá através de que métodos de investigação, a polícia acabou chegando a Leonardo Bruno dos Santos Santana e Cássio Souza Alves. Os dois têm 26 anos e, ao que parece, são os verdadeiros autores do crime. Além de assumirem o ataque, mandaram um pedido de desculpas para a vítima. Talvez orientados pela defesa, tratam o desfecho da ação como uma espécie de acidente de trabalho: a intenção era “apenas” roubar e não causar danos físicos ao alvo. Bom, a menos que haja uma nova reviravolta, o caso está encerrado no âmbito policial. Agora, é com a Justiça. Já o homicídio da garota Adriane, parece estar longe do desfecho, ao contrário do que a polícia quer fazer crer, com a apresentação do guarda municipal José Pereira da Conceição Júnior, 44, funcionário da Prefeitura de Lauro de Freitas. Sem dar mostras de ter aprendido a lição com inúmeras experiências mal-sucedidas, a equipe de investigação que atua no caso seguiu o conhecido caminho que leva a lugar algum: baseou suas suspeitas apenas em reconhecimento de testemunha. E quem é a testemunha-chave? O namorado da vítima, uma pessoa envolvida emocionalmente e, possivelmente, ansiosa por ver o culpado punido. Nessas circunstâncias, a emoção costuma se sobrepor à razão, embotando a percepção e comprometendo a capacidade de se fazer distinção entre realidade e imaginação. Se é que os fatos transcorreram exatamente como o rapaz contou aos investigadores. E quais são mesmo as evidências que ligam o suposto autor ao crime? Bom, a julgar pelo que a polícia apresentou até o momento, o Ministério Público não deverá ter trabalho para concluir que não há caso. José Júnior foi preso porque a testemunha garante ser o autor um guarda municipal. A polícia diz que sua foto foi escolhida em meio a outras 60 imagens de GMs e que, no reconhecimento presencial (pelo chamado “espelho mágico”), o namorado de Adriane confirmou a impressão inicial. Simples, assim. Não basta ‘achar’, é preciso provar Não tão simples assim! Que motivo levou José Júnior a estuprar e matar a adolescente? Ele possui histórico de violência? Em sendo assim, como conseguiu se tornar um guarda municipal? Qual o seu álibi para o momento do crime? Quem é, afinal de contas, o cidadão José Pereira Conceição Júnior? Por enquanto, sabe-se quem ele não é. Ele não possui relevância social nem é um político influente. Seus protestos de inocência caíram no vácuo. Uma manifestação realizada por familiares e amigos, pobres e anônimos como ele, não obteve repercussão capaz de fazer a sociedade abrir olhos e ouvidos para o que pode ser uma injustiça. Mas, admitamos que José Júnior tenha estuprado e assassinado Adriane. Não basta “achar”, é preciso provar. Do contrário, há o risco de o crime vir a entrar para o rol de casos não solucionados, devido a erros grosseiros na fase de investigação. Um exemplo emblemático desse procedimento é o até hoje não esclarecido duplo homicídio que teve como vítimas o acrobata Ricardo Matos dos Santos, 20 anos, ex-aluno da Escola Picolino de Artes Circenses, e o assaltante Robson de Souza Pinho, 19, o “Sapo”. Apontados como autores, os soldados da Polícia Militar Adilson José da Silva Souza, José Roberto dos Santos e Marco Antônio Carvalho Santa Bárbara, lotados na 39ª Companhia Independente (Imbuí/Boca do Rio), sofreram humilhações, foram execrados publicamente e ficaram presos por quase dois meses. Como provaram ser inocentes, foram liberados. A polícia silenciou sobre o assunto e os verdadeiros assassinos continuam impunes. Diante disso, não dá para entender a queixa do secretário Maurício Barbosa, titular da Segurança Pública na Bahia, que, dias atrás, deixou escapar seu desconforto em relação ao descompasso que marca as relações entre polícia e Justiça. “Quando o crime acontece, a cobrança vem para a polícia. A gente prende, mas logo depois o criminoso é solto e volta cometer delitos”, desabafou, em entrevista a um jornal local. “O Poder Judiciário o Legislativo são parceiros, mas estes órgãos (sic) precisam rever a questão das prisões. A sensação que a gente tem é que estamos enxugando gelo”. Ora, secretário, será que se as investigações fossem bem amarradas, a Justiça encontraria alguma ponta solta para desatar os nós? Duvido!
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas.
O inimigo viaja ao lado
(*) Jaciara Santos Meu primeiro contato com um DJ de Buzu – aquele ser insuportável que se acha no direito de impor a você o próprio (quase sempre péssimo) gosto musical – se deu no último verão. Por força das circunstâncias, esse foi um período em que andar de ônibus deixou de ser uma situação esporádica para entrar na minha rotina diária. Morando na Ilha de Vera Cruz e trabalhando aqui em Salvador, deixava o carro do outro lado da Baía de Todos os Santos. Mas eu não reclamava. Depois de 50 minutos num ferryboat, 15 minutos num bus era café pequeno. Isso, até o dia que tive a infelicidade de sentar ao lado de um daqueles inconvenientes de plantão. Estava eu viajando na leitura do delicioso “A Nuvem” de Sebastião Nery, quando sou trazida bruscamente à terra. Inicialmente, não entendi o que era aquele som de má qualidade, parecendo vir de um radinho de pilha. Procuro ao redor e não consigo ver de onde vem o ruído. É quando um balançar de corpo (dança?) denuncia o infrator, um rapaz de seus 19 anos, de pé, no corredor, a dois bancos de onde estou. Tento decifrar a música, mas não consigo. Tenho que admitir: sou uma nulidade no quesito novíssima música baiana. Só ouvia chiado de rádio transistor, som de percussão e, de vez em quando, alguns acordes desconexos. Ah, uma ou outra frase da música me chegava entrecortada e tinha a ver com os super-heróis Mulher Maravilha e Superman. Olho ao redor como a implorar apoio, mas os companheiros de viagem parecem estar de acordo com aquela agressão aos meus ouvidos. Até a manhã de hoje, achava que essa tinha sido minha pior experiência com um DJ de Buzu. Engano total. Hoje, num ônibus da linha Narandiba x Doron Barra R1, constatei que o inferno fica aqui pertinho da gente. Horário das 8h30, carro cheio. O trajeto era curto, dava pra encarar na boa. Entro, me acomodo de pé, próximo à porta, ali pela zona dos assentos reservados a pessoas com mobilidade reduzida. Trânsito ruinzinho de início de manhã. Sentada (indevidamente) numa cadeira de uso exclusivo de idosos e gestantes, uma criatura de seus 30 anos mexe freneticamente no celular. Não dou importância. Respiro aliviada ao ver que os carros começam a se mover mais rapidamente lá fora. De repente, aquele chiado típico de transistor de má qualidade domina o ambiente e o que alguns ousam chamar de música ecoa no ar rarefeito do buzu. O pior ainda estava por vir. Não satisfeita em poluir o ar com chiados e música de qualidade duvidosa, a cidadã decide fazer parte do show. Isso mesmo: se achando (com toda a carga pejorativa do baianês “se achar”) a abusada passa a acompanhar a cantora. E tome-lhe coisas do tipo “Faz tempo que não vejo a luz do dia/Estão tentando sepultar minha alegria…” e um refrão que incluía o verbo ressuscitar repetido à exaustão. Como da outra vez em que tive o desprazer de viajar com um DJ pagodeiro, olho ao redor em busca de um olhar indignado ou cúmplice… e nada! É como se a tortura viesse junto com o pacote de viagem. Fuzilo a criatura (baiano só chama de criatura elementos indesejáveis) com o olhar, mas ela faz cara de paisagem, do tipo nem tchum! Felizmente – como diz o ditado popular, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe – a música acabou. A carrasca ainda acessou seu menu “como torturar o vizinho”, mas não encontrou nenhuma música suficientemente cruel. Seu ponto de descida também estava próximo. E, como se nada houvesse acontecido, vestiu a jaqueta que trazia no colo, guardou na bolsa a máquina de tortura, digo o celular, puxou a cordinha do buzu e se foi. Pronta para infernizar a vida do próximo mais próximo.
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas.
Tijolo por Tijolo
(*) Jaciara Santos Antes mesmo de tomar conhecimento das causas do acidente que levou à morte nove trabalhadores da construção civil, em Salvador, um grupo de sindicalistas avisou que iria acionar o Ministério do Trabalho para pedir o embargo da obra que serviu de cenário à tragédia. No mesmo tom, algumas lideranças da categoria falaram também em negligência, condições inseguras de trabalho e situação de risco no canteiro de obras, dentre outras bandeiras que, bem usadas, servem de voz de comando a slogans e frases de efeito. Como sempre acontece nas grandes tragédias, há que se separar o joio do trigo. Entre as vozes que se levantam, há as lideranças responsáveis e comprometidas com a categoria, mas há também os oportunistas que não têm o menor escrúpulo de usar a dor alheia em proveito próprio. Quem nunca ouviu falar de pessoas inescrupulosas que, em meio a grandes desastres naturais – como terremotos e inundações – empunham falsas listas de arrecadação de donativos? Mal comparando, é quase a mesma situação. Entre desviar doações para flagelados e usar a dor alheia para interesses inconfessáveis não há uma grande distância… Há quanto tempo o edifício em que aconteceu o acidente desta terça-feira (09/08) estava em obras? Quantas vezes os sindicalistas estiveram ali antes para verificar as condições de trabalho que hoje denunciam ser inseguras? Do início do ano até o momento, 13 operários da construção civil morreram em acidentes de trabalho em Salvador. Ao todo, foram 53 acidentes. Não há notícia de que tenha havido qualquer mobilização das entidades que representam a categoria no sentido de acompanhar os casos ou verificar se os episódios ocorreram por mera fatalidade, por erro humano, problemas técnicos ou falha nas medidas de prevenção. Espera-se que a indignação demonstrada hoje pela manhã pelas lideranças da categoria seja o despertar da consciência de classe, o início de uma relação em que trabalhadores pedem respeito à vida e empresários se comprometem a oferecer condições seguras de trabalho. Do contrário, é jogar para a plateia. Até que a tragédia volte a bater à porta de uma outra construção e – parodiando os versos de Chico – outro trabalhador venha a flutuar no ar como se fosse um príncipe ou se acabar no chão feito um pacote bêbado, morrendo na contramão atrapalhando o tráfego…
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas.
A despedida do trema
(*) Jornalista Jaciara Nunes São tão raras atualmente as oportunidades para se dar uma genuína risada que merecemos perdão quando nos deixamos levar por uma ou outra bobajada dessas que inundam a rede mundial de computadores. Esta, por exemplo, nem deve ser tão nova, mas me foi enviada por uma amiga, há uma semana. Nestes tempos em que, para as autoridades educacionais do país, lutar por uma vida melhor é chutar o pau da barraca da gramática, soa como um grito solitário no deserto esta patética e imaginária despedida do sinal gráfico trema, abolido pelo Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Desconheço o autor da pérola.
Mauricio Teles: "SSP-BA excluiu 256 policiais desde 2007"
(*) Jaciara Santos Depois de duas semanas tentando uma entrevista com o secretário Maurício Teles Barbosa,delegado licenciado da Polícia Federal e titular da Secretaria de Segurança Pública do Estado, no final da tarde de segunda-feira (18), recebo uma ligação do assessor de comunicação, o jornalista Erival Guimarães, meu amigo. "Quer dizer que a agenda do secretário está superlotada, né?", me diz, rindo. "Segundo a assessoria de comunicação!", emendo no ato. Ele me pergunta se a entrevista poderia ser por telefone e se poderia ser naquele exato momento. Estava de saída e já havia desligado o computador. Estou de calças na mão, pra usar uma expressão bem popular. Mas topo. Peço dez minutos pra me preparar. Acostumada ao estilo bufão de uns e arrogante de outros gestores que já sentaram naquela cadeira, imagino que será uma entrevista difícil, focada em ego inflado, hesitações e evasivas. É na defensiva que me apresento. Comento a dificuldade para chegar até ele, que me diz estar realmente com uma agenda apertada. Tanto que está me atendendo entre duas audiências. Penso: começou o estrelismo e pergunto de quanto tempo disponho para a entrevista. "Dez minutos?", ele pergunta. Respiro fundo, comento alguma coisa de que não lembro e vou em frente. Mas, logo, logo, surpresa total: pode até ser tipo, mas o secretário com quem conversei (bem mais que dez minutos) não parece ser uma pessoa afetada, não sai pela tangente nas respostas e (ao contrário do que fantasiei) é uma pessoa simpática. Confira abaixo a entrevista. Sem afetação e sem estrelismo. À queima-roupa. Secretário, que avaliação o senhor faz destes primeiros meses de gestão no que diz respeito aos indicadores da violência? Tomando por base estes primeiros dias de abril, nós temos uma redução de aproximadamente 15% no índice de homicídios. Em Salvador ou em todo o estado? Em Salvador. Os dados do estado ainda estamos computando. Isso em relação ao mesmo período do ano passado... Isso. Comparando do início do ano até estes primeiros dias de abril. A que fatores o senhor atribui essa variação no índice de homicídios, que é um dos principais indicadores da violência urbana? Já seria resultado das mudanças implementadas na sua gestão? Sem dúvida que tem a ver com as mudanças, com o trabalho articulado entre as instituições policiais, com a mudança de gestão, planejamento das ações. A articulação com a Polícia Militar, com o seu comandante, tem sido decisiva para alcançarmos os resultados esperados. O fato de o senhor ser um homem de inteligência, de conhecer a criminalidade de forma, digamos, científica tem facilitado sua atuação? Evidentemente que ajuda o fato de que eu já conhecia a máquina, as pessoas, como funcionam as organizações. Sob esse aspecto, é importante também saber agregar as instituições, manter o respeito ao comando da Polícia Militar e ao delegado-geral, por exemplo. Vamos falar da menina dos olhos do governo: as Bases Comunitárias de Segurança. Apesar do marketing positivo, temos recebidos algumas denúncias, queixas da tropa... As queixas em qualquer processo de mudança são normais, mas nós estamos apurando todas as denúncias que nos têm chegado. Não sei se é do seu conhecimento, mas os policiais escalados para trabalhar no Calabar reclamam das condições do alojamento, das refeições... Nós temos consciência de que as acomodações hoje oferecidas não são as melhores, mas é preciso ter a compreensão de que estamos iniciando um trabalho e alguma situação pode ocorrer. É preciso também lembrar que o policiai é treinado para atuar em condições adversas, então essas dificuldades são transitórias e estamos trabalhando para oferecer melhores condições de trabalho.
Outra queixa, e essa vem de alguns comandantes de unidades da PM, é de que o deslocamento de policiais para o Calabar está desfalcando outras áreas da cidade. Descobrindo um santo para cobrir outro... Não existe isso de descobrir uma área para cobrir outra. Nós estamos utilizando o efetivo da área, com o apoio de unidades operacionais como Rondesp, estamos aproveitando uma parte dos 700 policiais formados em janeiro deste ano, mas temos a consciência de que é necessário aumentar o efetivo, o que será feito ao longo da gestão. Quanto à alimentação, o senhor poderia checar se é procedente a denúncia de que as refeições servidas à tropa têm chegado deterioradas? Claro. Pode ter certeza de que vamos verificar. Agora, a gente sabe que há uma certa resistência de alguns setores a qualquer mudança que se busca implementar. Sempre existem os céticos. Mas o que temos a dizer é que, apesar das pessoas que se mostram céticas, vamos seguir em frente com o projeto de segurança Pacto pela Vida. Secretário, sei que o senhor já falou exaustivamente sobre o assunto, mas eu ainda tenho uma curiosidade: por que começar a pacificação da cidade pelo Calabar? Não existem outras áreas mais violentas? É, algumas pessoas têm perguntado por que o Calabar. A questão é: eu tinha que dar o start no processo e, dentre as áreas mapeadas, o Calabar era a que se adaptava melhor ao momento. Precisávamos de uma base de treinamento, uma área onde pudéssemos fazer a experiência com todo o controle possível. Por isso não poderia ser uma área muito grande como, por exemplo, a região de Tancredo Neves. Por causa do tamanho, então... Por causa do tamanho e por oferecer maiores condições de controle, de logística e por ser uma área que apresenta problemas sérios de narcotráfico. O senhor falou há pouco que existem pessoas céticas com relação ao projeto. O senhor há de convir que não falta razões. O finado programa Ronda no Bairro é uma delas... O Ronda no Bairro não acabou. E um projeto não exclui o outro: o Ronda no Bairro e as Bases Comunitárias de Segurança podem coexistir perfeitamente.
Mudando um pouco de assunto. Como está o saneamento nos quadros da polícia? Para que a política de segurança dê certo é preciso limpar a casa, não? Recentemente, o governador Jaques Wagner disse que a administração estadual não vai conviver com "laranja podre" dentro da polícia... Sanear não é deflagrar uma caça às bruxas. Nesse sentido, nosso trabalho tem sido constante. Mas é bom que se diga: a maioria dos policiais honra a instituição, é uma minoria que estraga a imagem da polícia. Nosso esforço para afastar os maus policiais tem sido permanente e, de 2007 até os dias atuais, já foram demitidos dos quadros da Secretaria de Segurança Pública 256 policiais. Só da Polícia Civil? Não, da Secretaria, compreendendo aí as polícias Civil, Militar e Técnica. Todos por desvio de conduta? Exatamente e somente depois dos devidos procedimentos legais, como o processo administrativo disciplinar (PAD), no caso dos civis, e inquérito policial militar (IPM), no âmbito da PM. A gente pode dizer que esse estilo proativo é o estilo Maurício Teles? Não é o meu estilo. A gestão policial em todo o mundo está evoluindo para a gestão profissional, baseada no planejamento de ações, na integração entre as instituições. Pelo visto, agora é a hora e a vez dos menudos na SSP... (rindo) Bom, é a hora e a vez de quem interagir com a gestão. Eu procuro atuar com quem tem visão estratégica, quem planeja as ações, quem não desenvolve ações de modo açodado. E são pessoas com esse perfil que estão sendo colocados em postos de comando. Mas entre os policiais mais antigos e experientes não tem ninguém com esse perfil? Claro que sim e a prova é que temos colocado muitos deles em postos de comando. Hummm... meus dez minutos estão acabando. Tem mais alguma questão que o senhor queira abordar? Pode falar... Mas eu acho importante falar do Pacto pela Vida (programa de segurança pública, construído de forma conjunta com a sociedade) e da criação das câmaras setoriais, a primeira delas, a Câmara Setorial de Segurança Pública. E qual o papel dessa Câmara Setorial de Segurança Pública, secretário? A Câmara Setorial de Segurança Pública do Estado foi instalada agora em março e tem a função de discutir, planejar e acompanhar as políticas públicas de segurança. O que leva à violência? É possível prevenir com ações de cunho social? Estamos também discutindo com a Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos a criação da Câmara Setorial do Sistema Prisional, que tem o mesmo conceito: discutir e desenvolver ações voltadas para a melhoria do sistema prisional. Pra encerrar, o senhor já conseguiu vencer a resistência interna do pessoal da casa contra gestores que vêm da Policia Federal? Olha,a resistência existe e é natural, porque há o entendimento de que o gestor deveria ser do quadro da instituição. Mas não é só com quem vem da Policia Federal, não. Com o general (Edson Sá Rocha, titular da SSP-BA na gestão Paulo Souto) houve também. O importante é que possamos pôr em pratica o programa governamental de segurança.
Colunista: Jornalista Jaciara Santos, (jaciara@aqueimaroupa.com.br).
O Massacre da Mídia
(*) Jaciara Santos Não é a primeira nem será a última vez. Sempre que ocorre uma tragédia de grande alcance, a sociedade acaba sendo duplamente impactada. Primeiro, pela brutalidade dos fatos; depois, pela desumana espetacularização do caso. Com o massacre das crianças e adolescentes de Realengo não poderia ser (até que poderia, mas não está sendo) diferente. No vale-tudo da guerra pela audiência, emissoras de TV e rádio, jornais e sites noticiosos põem no front todo o arsenal disponível. No inesquecível 7 de abril de 2011, uma quinta-feira, até o estúdio de tradicional jornal televisivo mudou de endereço e design: em vez do cenário estático da redação, a fachada da Escola Municipal Tasso da Silveira. Mas esse não foi o principal ato do show em que se transformou o primeiro dia de cobertura do massacre. A caça aos sobreviventes chegou a ser perversa. Vi e revi, sei lá quantas vezes, a menina Jade contando, como se anestesiada estivesse, os momentos de terror que compartilhou com os colegas. A "cachoeira de sangue" que descia pela escada, os pedidos de clemência das vítimas ("por favor, moço, não me mate~..."), a forma como as meninas eram executadas e como fez para se proteger emocionalmente, enquanto a morte lhe rondava: para não gritar de pavor, concentrou-se, desenhando uma casinha na mão com a caneta que levava consigo. Alguém há de dizer que extrair os fatos da fonte primária é a função do jornalista. Como a sociedade poderia conhecer detalhes dessa tragédia, se os sobreviventes não fossem entrevistados?... Ora, não sejamos hipócritas. Como jornalista, também quero ter a primazia de um furo. Chegar onde colega algum pôde chegar e obter a notícia exclusiva. Mas não é isso o que se vê em situações como a da tragédia de ontem. Jade contou, não uma ou duas, mas uma infinidade de vezes o mesmo drama. Foi obrigada a reviver, indefinidamente, a sensação de ouvir cada tiro e cada grito, ver a cachoeira vermelha escorrer escada abaixo, sentir o cheiro de pólvora misturado com o do sangue empesteando o ar... Aqui vai uma necessária explicação. Nem sempre o papel de abutre é exercido de livre vontade pelo repórter em campo. Às vezes, como soldado raso, ele está ali apenas cumprindo ordens. Até dá para imaginar a chefia de reportagem passando instruções via celular, exigindo que a equipe encontre um cenário "bem legal", um enquadramento "mais bacana", uma forma "mais impactante" de abordar sobreviventes e demais envolvidos. Muitas vezes, é com a alma em pedaços e o rosto em fogo que o profissional acaba cumprindo essas determinações, não raro, para preservar o emprego. Guardadas as proporções, vivi uma experiência que ilustra essa situação. Era repórter em determinado jornal de Salvador (não vou entrar em detalhes para preservar a identidade das pessoas envolvidas) e chegou à redação a notícia de que uma moça acabara de ser estuprada. Naquele momento, a vítima era ouvida numa delegacia. Imediatamente fui incumbida pela chefia de reportagem a fazer uma "entrevista bem bacana" com a jovem. Eu disse não. Olhei para a colega, mulher e mãe como eu, e, respondi: "Se fosse sua filha você ia querer que um jornalista chegasse perto dela?". Mas nem sempre é possível conduzir com o devido bom senso coberturas de grande repercussão. A morbidez fala mais alto. A disputa por audiência berra mais alto ainda. O resultado é a superexposição de fontes, o desrespeito à privacidade e a absoluta inobservância ao direito de se sofrer em paz. Que se busque o melhor ângulo e se procure captar a frase de maior efeito dita por quem sofre a maior das dores de que um ser humano é capaz de suportar, que é a perda de um filho. Mas que não se esqueça de que, no peito de um personagem, também bate um coração. Até porque, ante a imprevisibilidade da vida, nunca se sabe quando poderemos estar do outro lado. Afinal, ninguém está imune à dor.
Colunista: Jornalista Jaciara Santos, (jaciara@aqueimaroupa.com.br).
A Última Viagem
(*) Jaciara Santos Conheci o agente Wilson Magalhães da Silva em janeiro deste ano. Estávamos na Ilha de Itaparica - nós (eu e minha família), mais pro lado de Vera Cruz; ele, em Itaparica mesmo, na localidade de Ponta de Areia. Fomos apresentados no sábado antes da Lavagem do Bonfim, dia 8, salvo engano. Ele foi até minha casa, levado por meu irmão João Batista, policial como ele e de quem era muito amigo. Nunca vou esquecer o que ele me disse na ocasião: "Então é você aquela jornalista chata que vivia enchendo o saco da gente?". E contou alguns episódios em que foi procurado por um amigo comum (omito o nome por uma questão de ética, vez que ele continua na ativa) para passar informações em off sobre uma ou outra investigação. "Eu falava pra ele", continuou o falante Wilson, "manda essa jornalista se f..., rapaz, jornalista é tudo f.d.p., mas acabava passando tudo", acrescentou entre gargalhadas. Ele tinha um jeito de rir que contagiava o mais sisudo dos interlocutores. A conversa terminou num abraço fraterno e com a promessa de que, em breve, ele me passaria uma "bomba". Nos dois dias seguintes, voltamos a nos encontrar. No domingo, ele conseguiu uma proeza: me fazer dar umas torturantes voltas de carona no jet ski que pilotava. Fomos eu e meu marido montados na garupa e nem fiz questão de esconder que estava vivendo uma experiência apavorante. Gozador, Wilson não deixou barato o vexame. Sempre que nos encontrávamos (depois disso, nos vimos outras duas vezes), perguntava quando eu ia dar outro passeio de jet ski. Respondia com alguma expressão impublicável, vez que, embora nos conhecêssemos há tão pouco tempo, já nos tratávamos como velhos amigos. A última vez em que ele curtiu com minha cara foi em 2 de fevereiro, na Festa de Iemanjá, quando o encontrei rapidamente. "E aí, vamos dar uma volta de jet ski?", provocou. "Vá à p...!", devolvi. E foi com um misto de surpresa e horror que recebi a notícia da morte de Wilson, na sexta-feira pela manhã. Soube através do mesmo irmão que nos apresentara. Estava num táxi, a caminho do trabalho, e fiquei sem ação. Na hora, me veio à mente a lembrança dos filhos dele que conheci: os gêmeos peraltas (dois pestinhas loiros, tão lindos quanto levados), a mocinha e o menino com jeito de rapazinho que não desgrudava dele. Embora saiba o nome dos quatro, reservo-me o direito de preservá-los. Pensei na orfandade a que foram atiradas abruptamente aquelas quatro criaturinhas que pareciam tão apegadas ao pai. Sei pouco da vida de Wilson, mas o suficiente para intuir que ele amava de paixão aos filhos e os colocava acima de tudo em sua vida. Provavelmente, foi para os filhos o seu último pensamento. Quem sabe não teria sido esse elo invisível o que lhe teria dado forças para, mesmo baleado mortalmente, acreditar-se em condições de sair em perseguição aos bandidos? Testemunhas contam que Wilson tentou correr atrás dos criminosos e ainda chamou o amigo Edilincolin Silva Lima (mecânico que levara à ilha pra consertar seu "Bugre") para acompanhá-lo. Alvejado na cabeça, Edilincolin teve morte imediata. Não sei em que circunstâncias aconteceu o crime. Fala-se em latrocínio (roubo seguido de morte) e até já se tem nome e RG dos supostos autores. Só o tempo e uma investigação séria poderão dar as respostas que a família, amigos e a sociedade esperam. A hora não é de vingança nem de ações ditadas pelo corporativismo. De nada adianta prender aleatoriamente este ou aquele bandido para que diga que fez o que não fez. Tampouco sair matando criminosos sob a alegação de confronto ou, pior ainda, em ações clandestinas na calada da madrugada. Se não se chegar aos verdadeiros autores, quem sai ganhando é a impunidade. Não fui ao sepultamento de Wilson. Aproveitei como desculpas a montanha de compromissos profissionais em que estava atolada na sexta-feira e a distância do cemitério escolhido para a cerimônia. Eram impedimentos reais, mas que poderiam ser contornados, caso não houvesse uma outra razão para me omitir. Preferi não ir ao enterro e guardar de Wilson a imagem do gozador, bonachão e sempre pronto para uma piada que conheci na ilha. Sei que, a esta altura, se pudesse ler estas linhas, ele franziria a testa e, com um afetado ar de desdém, me diria na lata: "Deixa de história. Vocês, jornalistas, são todos uns f.d.p.". Pronto, selaríamos a paz com boas gargalhadas...
Colunista: Jornalista Jaciara Santos, (jaciara@aqueimaroupa.com.br).
Marcas de Batom
(*) Jaciara Santos Faz algum tempo que li pela primeira vez esta mensagem, recebida através de e-mail. Semana passada, voltei a recebê-la e achei que era hora de compartilhar a lição. É, em meio ao lixo que rola na net, de vez em quando dá pra se aproveitar alguma coisa. Esta, certamente criada por uma imaginação muito fértil, é bem interessante. Mostra quão pouco são eficazes as palavras, quando usadas como ferramentas de convencimento. E é um exemplo de que a ação vale muuuuuuuuuito mais do que o mais duro dos sermões. Não ria. O caso é sério. "Numa escola pública estava ocorrendo uma situação inusitada: meninas de 12 anos que usavam batom, todos os dias beijavam o espelho para remover o excesso de batom. O diretor andava bastante aborrecido, porque o zelador tinha um trabalho enorme para limpar o espelho ao final do dia. Mas, como sempre, na tarde seguinte, lá estavam as mesmas marcas de batom... Um dia o diretor juntou o bando de meninas no banheiro e explicou pacientemente que era muito complicado limpar o espelho com todas aquelas marcas que elas faziam. Fez uma palestra de uma hora. No dia seguinte as marcas de batom no banheiro reapareceram... No outro dia, o diretor juntou o bando de meninas e o zelador no banheiro, e pediu ao zelador para demonstrar a dificuldade do trabalho. O zelador imediatamente pegou um pano, molhou no vaso sanitário e passou no espelho. Nunca mais apareceram marcas de batom no espelho!"
Colunista: Jornalista Jaciara Santos, (jaciara@aqueimaroupa.com.br).
O Esquecimento que Mata
*Jaciara Santos Somos, efetivamente, uma sociedade sem memória e movida a espasmos provocados por ondas de sensacionalimos. A cada nova tragédia cotidiana, tratamos de rapidamente varrer da lembrança aquela mesma violência que ontem nos deixou chocados e boquiabertos. Viciados em morbidez, estamos sempre e sempre buscando uma dose maior desse aditivo que parece nos servir de alento. Essas reflexões me vêm como mote do silêncio ensurdecedor que se fez nesta segunda-feira (24) em torno do primeiro aniversário de morte da universitária Luciana Machado Souza, 27 anos, assassinada há um ano pelo homem com quem casara três dias antes, o agente policial Evaristo Santana Filho, 40. O crime monopolizou o noticiário por uma semana, talvez. Afinal, continha elementos suficientes para fazer jorrar sangue das manchetes: marido mata a mulher, pouco mais de 48 horas, após o casamento, no dia em que comemoravam as bodas com a família. Por mais inverossímil que possa parecer, foi exatamente o que aconteceu. O casal se desentendeu quando voltava para casa, após passar o dia em um sítio onde festejava com familiares a recente união civil. O homicídio foi o desfecho de uma discussão aparentemente tola, motivada por uma divergência quanto ao caminho que deveriam percorrer no retorno à residência, em Portão, bairro de Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. Para completar o enredo, Evaristo matou Luciana na presença das filhas que ele e ela traziam de relacionamentos anteriores. A dele, uma adolescente de 15 anos; as dela, uma menina de cinco e outra de onze anos, conforme noticiário da época. Um outro elemento instigava o interesse da mídia: a peculiaridade de que o autor integrava o quadro do Centro de Operações Especiais (COE), considerado um grupo de elite dentro da polícia baiana. Por supostamente abrigar o que de melhor existe em recursos humanos e técnicos no âmbito da Secretaria de Segurança Pública, a unidade é sempre acionada em ocasiões que exigem a combinação entre inteligência, estratégia e força calculada. Pelo menos, era essa a imagem que a sociedade via quando olhava para o COE. Ao assassinar a mulher numa crise de destempero, Evaristo pôs em dúvida a excelência do grupo. Mas a qualidade técnica do COE não está em discussão (circulou até o boato de que o agente entrara para o grupo, não pela porta da frente, mas utilizando-se de um acesso lateral, aberto por relações familiares). A questão aqui é fazer um mea culpa pela nossa falta de memória, um dos atalhos mais curtos para a impunidade. Aliás, quem milita na área criminal sabe o quanto pesa o clamor das ruas sobre os humores da Justiça. Quanto mais recente ou quanto maior comoção um crime cause entre a população, maior a chance de punição dos culpados. Não por acaso, experientes criminalistas usam e abusam das brechas da lei para protelar o momento de ver seus clientes sentados no banco dos réus. Afinal, a emoção costuma ser uma espécie de oitavo jurado no conselho de sentença e pode desequilibrar momentaneamente o placar, levando a decisões flagrantemente contrária às provas acostadas aos autos. No caso de Evaristo, não há como a voz das ruas induzir a erros, uma vez que a autoria está sobejamente provada: existe confissão, há testemunhas e todas as evidências materiais necessárias. Exatamente por isso, na iminência de uma decisão em seu desfavor, a defesa vem fazendo com esmero o dever de casa: deixa-o fora da mídia, enquanto trabalha para provar sua suposta inimputabilidade com base em uma questionável doença mental, como reza o artigo 26 do Código Penal, segundo o qual "É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento". Vivendo entre a Corregedoria da Polícia Civil, Chapada do Rio Vermelho, e o Hospital de Custódia e Tratamento, o HCT, na Baixa do Fiscal, Evaristo alterna momentos de absoluta normalidade com períodos em que põe em dúvida a própria sanidade. Faz parte do script. Lembremos, entretanto: esse mesmo cidadão, que ora luta para provar ser doente mental, é o mesmo que fez de tudo para desqualificar o exame psicológico que lhe barrou a entrada na Polícia Civil (ele entrou mediante mandado de segurança). Resta à sociedade fazer com que as emoções despertadas pelo crime, um ano atrás, permaneçam latentes. A memória de Luciana precisa continuar viva. Que a dor de todos que lhe amaram faça ecoar aos ouvidos da Justiça o clamor pela busca de justiça verdadeira. Que a nossa falta de memória e a busca incessante por novidade não sejam o mote para mais um crime impune, como tantos por aí. O esquecimento, como se sabe, não passa de uma segunda morte.
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