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Um feto que não quer nascer

21/07/2011 21:31

(*) Glênio Cabral

Há nove meses to dentro da barriga de mamãe. Isso aqui é uma maravilha. Vida de feto é outra coisa, pode crer. Mas infelizmente essa mamata já ta acabando. Mamãe começou a ter contrações e parece que vou nascer a qualquer momento. Mas eu não quero nascer. Na verdade, me recuso a nascer. Nascer pra que? Pra viver nesse país chamado Brasil?     

Não quero nascer num país onde os bueiros estão voando. No Rio de Janeiro os bueiros pensam que são pássaros. De uma hora pra outra resolveram alcançar as estrelas. O problema não é a subida, mas a descida. Um bueiro em queda livre pode transformar alguém em panqueca. Não quero nascer num país onde os bueiros pensam que são andorinhas.

Também não quero nascer num país onde lixo hospitalar costuma ser jogado em aterros sanitários. Em vários estados do Brasil, seringas usadas, roupas ensangüentadas, algodões usados e mais um monte de lixo de hospital é jogado em meio ao lixo comum. Em vez de tratar e separar esse material perigosíssimo, o poder público permite o seu descarte nos lixões da vida. Gatos comem nos lixões. E gatos freqüentam casas de pessoas. O resultado disso é terrivelmente previsível.

Não quero nascer num país onde a saúde pública é uma piada. Se eu nascer no Brasil, terei que pagar um plano de saúde porque não posso confiar na saúde oferecida pelo estado. Pra que? Pra morrer a míngua na fila de um hospital? Pra ser atendido quando já estiver enterrado e sendo decomposto por parasitas? E se eu não puder pagar um plano de saúde, o que farei? Simples: permanecerei aqui dentro. Na barriga de mamãe tenho saúde de graça. 

Não quero nascer num país onde serei obrigado a pagar os maiores impostos do mundo pra ter um monte de coisas que nunca terei. Pagarei impostos pra ter saúde de qualidade, e não terei. Pagarei impostos pra ter segurança, e não terei. Pagarei impostos pra ter educação e não terei. E ainda assim, pagarei impostos até morrer. Aqui dentro não pago porcaria de imposto nenhum e tenho tudo isso de graça. Nascer pra que?

Está decidido então! Não vou nascer! Ficarei na barriga de mamãe sem pagar imposto nenhum, e ainda assim terei saúde de qualidade, educação e segurança. E sabe por quê? Porque no útero materno não tem essa raça desprezível chamada corrupto. Aqui dentro, o que mamãe me envia pelo cordão umbilical chega até mim, sem nenhum tipo de desvio. Mas espere! O que essas mãos estão fazendo aqui dentro? Estranho, elas parecem vir em minha direção! Estão me agarrando, me puxando pra fora! Oh, não, são as mãos de um médico! Mamãe entrou em trabalho de parto e tem um médico tentando me fazer nascer! Sai pra lá, seu médico! Sai pra lá! Não quero nascer nesse país, me recuso a nascer nesse país! Daqui não saio daqui ninguém me tira! 


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