ArtigosTijolo por Tijolo11/08/2011 19:59(*) Jaciara Santos Antes mesmo de tomar conhecimento das causas do acidente que levou à morte nove trabalhadores da construção civil, em Salvador, um grupo de sindicalistas avisou que iria acionar o Ministério do Trabalho para pedir o embargo da obra que serviu de cenário à tragédia. No mesmo tom, algumas lideranças da categoria falaram também em negligência, condições inseguras de trabalho e situação de risco no canteiro de obras, dentre outras bandeiras que, bem usadas, servem de voz de comando a slogans e frases de efeito. Como sempre acontece nas grandes tragédias, há que se separar o joio do trigo. Entre as vozes que se levantam, há as lideranças responsáveis e comprometidas com a categoria, mas há também os oportunistas que não têm o menor escrúpulo de usar a dor alheia em proveito próprio. Quem nunca ouviu falar de pessoas inescrupulosas que, em meio a grandes desastres naturais – como terremotos e inundações – empunham falsas listas de arrecadação de donativos? Mal comparando, é quase a mesma situação. Entre desviar doações para flagelados e usar a dor alheia para interesses inconfessáveis não há uma grande distância… Há quanto tempo o edifício em que aconteceu o acidente desta terça-feira (09/08) estava em obras? Quantas vezes os sindicalistas estiveram ali antes para verificar as condições de trabalho que hoje denunciam ser inseguras? Do início do ano até o momento, 13 operários da construção civil morreram em acidentes de trabalho em Salvador. Ao todo, foram 53 acidentes. Não há notícia de que tenha havido qualquer mobilização das entidades que representam a categoria no sentido de acompanhar os casos ou verificar se os episódios ocorreram por mera fatalidade, por erro humano, problemas técnicos ou falha nas medidas de prevenção. Espera-se que a indignação demonstrada hoje pela manhã pelas lideranças da categoria seja o despertar da consciência de classe, o início de uma relação em que trabalhadores pedem respeito à vida e empresários se comprometem a oferecer condições seguras de trabalho. Do contrário, é jogar para a plateia. Até que a tragédia volte a bater à porta de uma outra construção e – parodiando os versos de Chico – outro trabalhador venha a flutuar no ar como se fosse um príncipe ou se acabar no chão feito um pacote bêbado, morrendo na contramão atrapalhando o tráfego…
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. CategoriasJaciara Santos |
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