ArtigosO inimigo viaja ao lado19/08/2011 11:09(*) Jaciara Santos Meu primeiro contato com um DJ de Buzu – aquele ser insuportável que se acha no direito de impor a você o próprio (quase sempre péssimo) gosto musical – se deu no último verão. Por força das circunstâncias, esse foi um período em que andar de ônibus deixou de ser uma situação esporádica para entrar na minha rotina diária. Morando na Ilha de Vera Cruz e trabalhando aqui em Salvador, deixava o carro do outro lado da Baía de Todos os Santos. Mas eu não reclamava. Depois de 50 minutos num ferryboat, 15 minutos num bus era café pequeno. Isso, até o dia que tive a infelicidade de sentar ao lado de um daqueles inconvenientes de plantão. Estava eu viajando na leitura do delicioso “A Nuvem” de Sebastião Nery, quando sou trazida bruscamente à terra. Inicialmente, não entendi o que era aquele som de má qualidade, parecendo vir de um radinho de pilha. Procuro ao redor e não consigo ver de onde vem o ruído. É quando um balançar de corpo (dança?) denuncia o infrator, um rapaz de seus 19 anos, de pé, no corredor, a dois bancos de onde estou. Tento decifrar a música, mas não consigo. Tenho que admitir: sou uma nulidade no quesito novíssima música baiana. Só ouvia chiado de rádio transistor, som de percussão e, de vez em quando, alguns acordes desconexos. Ah, uma ou outra frase da música me chegava entrecortada e tinha a ver com os super-heróis Mulher Maravilha e Superman. Olho ao redor como a implorar apoio, mas os companheiros de viagem parecem estar de acordo com aquela agressão aos meus ouvidos. Até a manhã de hoje, achava que essa tinha sido minha pior experiência com um DJ de Buzu. Engano total. Hoje, num ônibus da linha Narandiba x Doron Barra R1, constatei que o inferno fica aqui pertinho da gente. Horário das 8h30, carro cheio. O trajeto era curto, dava pra encarar na boa. Entro, me acomodo de pé, próximo à porta, ali pela zona dos assentos reservados a pessoas com mobilidade reduzida. Trânsito ruinzinho de início de manhã. Sentada (indevidamente) numa cadeira de uso exclusivo de idosos e gestantes, uma criatura de seus 30 anos mexe freneticamente no celular. Não dou importância. Respiro aliviada ao ver que os carros começam a se mover mais rapidamente lá fora. De repente, aquele chiado típico de transistor de má qualidade domina o ambiente e o que alguns ousam chamar de música ecoa no ar rarefeito do buzu. O pior ainda estava por vir. Não satisfeita em poluir o ar com chiados e música de qualidade duvidosa, a cidadã decide fazer parte do show. Isso mesmo: se achando (com toda a carga pejorativa do baianês “se achar”) a abusada passa a acompanhar a cantora. E tome-lhe coisas do tipo “Faz tempo que não vejo a luz do dia/Estão tentando sepultar minha alegria…” e um refrão que incluía o verbo ressuscitar repetido à exaustão. Como da outra vez em que tive o desprazer de viajar com um DJ pagodeiro, olho ao redor em busca de um olhar indignado ou cúmplice… e nada! É como se a tortura viesse junto com o pacote de viagem. Fuzilo a criatura (baiano só chama de criatura elementos indesejáveis) com o olhar, mas ela faz cara de paisagem, do tipo nem tchum! Felizmente – como diz o ditado popular, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe – a música acabou. A carrasca ainda acessou seu menu “como torturar o vizinho”, mas não encontrou nenhuma música suficientemente cruel. Seu ponto de descida também estava próximo. E, como se nada houvesse acontecido, vestiu a jaqueta que trazia no colo, guardou na bolsa a máquina de tortura, digo o celular, puxou a cordinha do buzu e se foi. Pronta para infernizar a vida do próximo mais próximo.
Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. CategoriasJaciara Santos |
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