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Em uma fria noite de verão

16/09/2011 14:49

(*) Prof.  Marilene Oliveira de Andrade

Fim de expediente. Começo de noite. Trânsito congestionado. Pessoas apressadas dirigem-se ao ponto de ônibus. Todos lutam por um espaço. Crianças, adolescentes, jovens, muitos dispersos nas ruas. Talvez, vítimas de uma sociedade desigual. Apática. Sem nenhum medo ou receio, usam, vendem e partilham drogas. Rostos desfigurados, olhares sombrios. Diálogos confusos. Ficam prontos para aplicar o golpe nas pessoas que passam por ali. Ameaçadas por esses sujeitos, algumas reagem. Outras correm. De outras, tudo é levado. Gritos, choros, pânicos, correrias, revoltas, protestos. Valores transgredidos, condutas violadas... Abismo à frente. Olhos vedados. A rua é o mundo. O espaço. O tudo. Observo as cenas. As pessoas. Os atos.

O céu está nebuloso. Parece que vai chover. Não demora muito e a chuva cai. O asfalto fica brilhando. Em pouco tempo pequenas lagoas são formadas. Ruas inundadas. Caos total em alguns pontos da cidade. Os carros passam em disparada espirrando aquele líquido contaminado em tudo e contaminando as pessoas que estão por perto.

- Mal educado! Seu filho da “p...” alguém grita.

A noite fica mais tensa. A chuva não cessa. Ligo o som. O limpador de pára-brisas dança para lá e para cá incessantemente. A visibilidade fica comprometida. Os vidros embaçados. O semáforo fecha. Sinto medo... Fiquei angustiada. Ao redor vejo crianças vendendo balas. Em meio a tudo isso, aproveito a parada para trocar o CD. Preciso ouvir uma música para relaxar. 40, 39, 38... 3, 2, 1. O sinal abre. Alguns motoristas imprudentes e mal educados querem sair às pressas, buzinas, xingamentos, palavrões. Seria tão bom se fôssemos eticamente corretos!

Observo os carros a minha frente, cada um segue destinos variados. Para onde estão indo essas pessoas nesse momento? Arrisco um palpite: umas devem estar voltando para casa. Para a sua família. Outras, para o barzinho. Para o cinema... Motel..., talvez. Como é intrigante a diversidade!

A chuva está aumentando. Raios começam a cruzar o céu escuro. Estremeço-me. Não tenho muito medo de trovões, mas confesso que não me agradam. Já ouvi casos de pessoas que foram mortas, vítimas de raios.

Logo a minha frente vê uma multidão. Pessoas tumultuando o local. Sinto vontade de parar para ver o que está acontecendo. Desisto. Parece ser um acidente e pelo visto, grave, pois há corpo no chão. Será que morreu alguém? Tomara Deus que não! A morte é muito cruel. Não gosto dela. Quero-a bem longe de mim. De repente, a sirene é ativada. O carro dos bombeiros passa em alta velocidade em direção a um

hospital que fica a 500 metros do local do acidente. Oxalá que essa vítima consiga ser atendida!

Nesse momento recordo-me das pessoas atingidas por “balas perdidas”. Perdidas?! Ou achadas?! Diria, achadas em peitos inocentes, em corações cheios de sonhos, em cérebros geniais. A família enlutada passa a experimentar o sabor amargo dessas balas cruéis. Quem são os culpados? Melhor pensar em outras coisas para não aumentar a minha indignação.

Entrarei na próxima rua à direita. Acionarei o controle do portão da garagem e entrarei rapidamente. Tenho medo de ser assaltada. Sequestrada... Assaltada representa uma possibilidade, mas sequestrada, não. Iriam sequestrar uma professora? Só se estivessem bem drogados. Com certeza iriam até mesmo pagar pela minha libertação. Professores ainda ganham muito mal nesse país. Uma profissão tão nobre, educar outros seres humanos. Fico intrigada quando penso que qualquer outro profissional, precisou passar antes por um professor. O que há de errado com esse indivíduo tão mal remunerado?

Procuro o controle do portão e vejo que não está ali. Ligo para casa. Rapidamente o portão se abre e estaciono na garagem. Sinto-me mais segura agora. Mais segura. Sim. Não totalmente. O perigo está em toda parte. Preciso tomar um banho e descansar, tirar o “peso do mundo dos meus ombros”. Tive um dia muito cansativo. Compromissos. Compromissos. Uma lista interminável de atividades. A sociedade capitalista dita às ordens: “ser”, “ter” e “poder”. Ser superior ao outro; possuir muito dinheiro e poder controlar o mundo.

Para variar ligo a TV, só vejo desgraças por toda a parte. Fome. Guerra. Terremotos. Enchentes. Assassinatos. Parece até que virou moda a violência contra a mulher no nosso país. Choro enquanto contemplo essas cenas esdrúxulas Revolto-me ao mesmo tempo, pois muitos homens são os responsáveis por essas atrocidades. Não suporto desligo a TV e vou ler um pouco, vai me fazer bem. Por hoje chega. Preciso esquentar-me dessa noite fria de verão, pois minha alma parece estar gelada. Apago a luz e vou dormir. Boa noite!

 

Prof. Marilene Oliveira de Andrade

Professora, cabeleireira, poetisa, contista, cronista, membro da Academia de Letras do Recôncavo, Licenciada em Pedagogia, Letras Vernáculas e Especializando em Estudos Linguísticos e Literários.


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