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Morrer... Um direito de todos!

21/09/2011 00:06

(*) Glênio Cabral

Dia desses um velho conhecido me veio com essa: “Eu quero morrer, mas tô sem grana.” Tomei um susto. Que história é essa, perguntei-lhe. E ele me explicou. Meu amigo é um cidadão que sobrevive às custas de um salário mínimo. Ele disse que não agüentava mais essa vida, que estava cansado de viver no Brasil, esse país que nunca lhe deu o mínimo de educação, segurança e saúde. Logo percebi que o desânimo invadira a sua alma e tentei reanimar-lhe. Falei que as coisas iram melhorar, que todo mundo passa por dificuldades nessa vida, que só não tem jeito pra morte...e foi aí que ele desabou de vez.   

“Pois até o direito de morrer esse país me tirou”, berrou o infeliz. Meu amigo disse que já estava sentindo que seus dias se findavam. “Agente sente quando está para partir”, contou-me. Estava convicto de que iria morrer a qualquer momento e por isso resolveu apressar os custos do próprio funeral. Visitou diversas casas funerárias da cidade, procurando se informar a respeito das despesas inerentes a sua morte. Depois de dois longos meses de profunda pesquisa, concluiu deprimido que teria que adiar sua viagem para o além. Morrer estava caro demais.   

Ele descobriu que o famoso “paletó de madeira”, o caixão, hoje em dia não sai por menos de R$ 1.000,00. Mas como poderia comprar o derradeiro paletó recebendo apenas R$ 545,00 por mês? Ele também descobriu que há vários outros custos que envolvem um enterro, como o aluguel do velório, a taxa para enterrar, o valor do jazigo, a coroa de flores, a arrumação do defunto e mais um monte de coisinhas fúnebres. Em suma, morrer pra ele, mesmo sendo um “defunto barato”, não sairia por menos de R$ 2.500,00.

Agora entendo a sua dor. Apesar de sempre ter pagado seus impostos, muitos dos seus direitos foram subtraídos ao longo de sua vida. Tiraram-lhe o direito de ter uma boa educação. Surrupiaram-lhe o direito de ter uma saúde de qualidade. Afanaram-lhe o direito de viver com segurança. E agora, tiravam-lhe o direito até de poder morrer. 

Meu amigo é um homem íntegro e honesto. Sempre pagou suas contas em dia. Jamais aceitaria descer à cova como um defunto “inadimplente.” Não, esse futuro defunto tem muita vergonha na cara. Por isso ele resolveu espichar sua vida por mais algum tempo, só até conseguir o dinheiro pra tão sonhada morte. Até lá, terá que continuar vivendo sem educação, saúde e segurança, assim como milhões de outros brasileiros. Uma coisa é certa: morrer agora virou artigo de luxo, coisa só pra bacana. Já dizia minha avó: luxo só tem quem pode manter. Por isso a partir de agora pobre está proibido de morrer. Isso não lhe pertence mais. 

 

 

  1. Colunista: Glênio Cabral / Pós em Gestão de Pessoas e Idelizador do Site: www.novainfancia.com.br 
  2. e-mail: glsilva@hotmail.com

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