ArtigosNecessidades e Consumo18/10/2011 13:49(*) Prof. André Gustavo Há mais de 200 anos atrás Karl Marx já dizia que a essência do modelo capitalista está baseada no consumo, nas lutas de classes e na acumulação de riqueza, estes são as bases da construção e da sustentabilidade do sistema econômico que prevalece e que, silenciosamente, se renova ad eternum. É nesse ambiente que vivemos e que, dia a dia, nos leva ao mercado para comprar, vender e realizar nossos desejos e sonhos, para nos fazer sentir aceito e parte da sociedade. Vamos negociado às nossas necessidades com as realizações possíveis que o sistema mundo nos permite realizar. Aquilo que não realizamos, viram frustrações e traumas a serem tratadas com medicamentos e nos consultórios psicológicos. Na cultura impregnada da nossa sociedade ocidental, e em boa parte do mundo oriental, o consumo é o pilar central, o divisor de águas entre a felicidade e a infelicidade. É através dele que realizamos nossas maiores aspirações. É no mercado onde o consumo materializa nossas emoções e desejos, mas é também nele que nossas frustrações e dores, são potencializadas e colocadas a prova. É nesse ambiente imaterial que ocorre um jogo permanente de negociações, entre nós mesmos e entre eu e o outro. Um ambiente repleto de assimetria de informações e perspectivas, onde a agenda oculta, quase sempre prevalece, tornando mais difícil os acordos que propiciariam um mundo mais tranqüilo, justo e igual. Apesar de ainda ser forte a resistência de boa parte dos economistas em aceitar fatores como a psicologia, a história, a sociologia, dentre outros como fatores importante na tomada de decisões econômicas, já há diversas correntes do pensamento econômico que traz esses aspectos como importantes e essenciais para entender como investimos e como vamos aos mercados realizar esse jogo dos desejos. São um infindável movimento de negociações, algumas claras e óbvias outras ocultas, mas todas elas marcadas pela nossa psique, pelas nossas emoções e sentimentos. Sempre as pessoas foram ao mercado comprar e vender, ou seja, negociar, movido por interesses pessoais. Negociamos sempre e de tudo. Desde os povos mais antigos, antes de Cristo, às salas digitalizadas dos mercados financeiros, estamos buscando satisfazer nossas vontades e desejos individuais. Negociamos sem parar, em uma simples compra de bananas na barraca da esquina ou na compra de uma bela e valiosa jóia para presentear a pessoa amada. Em todos esses momentos usamos nossa razão para chegar a acordos materiais e financeiros que nos leve a uma satisfação do queremos ter, mas também usamos as nossas emoções, sentimentos e paixões. Não há negociação sem esses elementos, principalmente, quando tratamos de processos inseridos em uma lógica econômica capitalista. Como afirmou o sociólogo Renato Ribeiro “o mercado não é um grau zero da psicologia e dos desejos – e sim o espaço em que estes negociam.” Para ele é no mercado que meus desejos negociam com os seus, é nele que nos realizamos ou onde criamos patologias psíquicas que nos atormenta e nos causa traumas. Os nossos desejos ganham realizações quando realizamos com outras pessoas seus desejos e realizações. Quando compro algo e me sinto realizado pelo que pude ter, negociei com alguém o seu sonho, desejo, sentimento de ter outra coisa, que por meio de mim, ele pode conseguir. O mercado é um local de realizações de negociação sem fim. É no mercado que se dá esse jogo de negociação, e o poder conquistado pelas empresas capitalista fez com que o Estado, importante elemento para a regulação de uma sociedade de bem-estar social (Adam Smith 1723-1790), delegasse esse papel aos grandes grupos empresariais, reduzindo sua participação a mero indutor do desenvolvimento econômico social, e de fiscalização (Ribeiro, 2002). Com seu grande poder de convencimento, baseado na legitimidade das eleições e na sua capacidade de investimento em propaganda, o Estado com seus interesses públicos e fuga de escândalos, já que esses diminuem sua capacidade de perpetuação, alimenta a agenda oculta do mercado, prejudicando ainda mais a população, que sistematicamente continua indo às compras em busca dessa tal felicidade. Assim vamos vivendo sob uma lógica predominantemente baseada no consumo de produtos e serviços. São esses que promete nos levar ao estado plano de felicidade, e a curar todos nossos males. Porém nem sempre isso acontece, e precisamos negociar constantemente, sob uma agenda oculta construída sob os interesses capitalistas e sob a cada vez maior negação do estado do seu papel de regulador e indutor do bem estar social. Os consumidores inconscientemente, feitos zumbis marcham para buscam no mercado satisfazer seus desejos e sonhos capitalizados, que foram criados pelos mesmos atores que lucram com a venda das realizações dos mesmos.
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