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Coisas Grotescas

22/11/2011 11:22

(*) Glênio Cabral

Qual foi a coisa mais grotesca que você já viu na vida?  Braços amputados? Imagens do holocausto judeu? Crianças esqueléticas em algumas regiões da África?

Ontem à noite me deparei com algo grotesco. Estava dirigindo meu carro quando percebi que havia um cachorro bloqueando o caminho. Chovia bastante, mas dava pra ver que o bicho tinha alguma coisa na boca. Imaginei que fosse um saco de lixo, mas estava errado. Era maior, meio amarronzado... Meu Deus.

O cachorro tinha uma cabeça de porco na boca! Um cabeção, diga-se de passagem. Com orelhas, focinho, olhos e um sorriso cínico nos lábios. Uma cabeça completa, sem tirar nem por.

Gelei. Era noite, chovia bastante e havia um cachorro com um cabeção de porco impedindo minha passagem. Como aquilo foi parar ali?! O cão devia ter pegado num açougue, só pode... Enquanto olhava pelo retrovisor aquela cena horripilante, lembrei-me de outros fatos grotescos. Aliás, mais grotescos que o que acabara de ver. Lembrei-me, por exemplo, das denúncias de corrupção que invadem os bastidores da política nacional. Desvios de verbas públicas, ausência de ressarcimento ao erário, quedas de ministros, panos quentes... E o mais engraçado é que nada disso me deixa enjoado. Nunca vomitei por isso. O que realmente mexe com meu estômago é o cabeção do porco.

Lembrei-me também do caos que assola a segurança pública, dos traficantes que invadiram uma escola trocando tiros com a polícia, das obras para a Copa do Mundo que só acontecem por causa da Copa (e não por causa do povo) e ainda assim, pasme: não senti nojo de nada. Só o que me enoja é o cabeção do porco.

Então concluí que o brasileiro precisa sentir mais nojo das coisas. Sim, precisamos vomitar com gosto diante de tantos descalabros. Talvez devêssemos até criar o Dia Nacional do Vômito Coletivo, quando todos nós, enojados cidadãos, vomitaríamos nossa insatisfação diante de tanta bandalheira explícita. Pensei até num tiro grito de guerra bem sugestivo para a ocasião: BLEARGHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!

De repente notei que o cabeção do porco me encarava pelo retrovisor. Seus olhos de defunto pareciam estranhamente vivos, e sua boca balbuciava um discreto “APOIADO!!!”. Satisfeito, o porco piscou pra mim. E eu educadamente pisquei de volta.



  1. Colunista: Glênio Cabral / Pós em Gestão de Pessoas e Idelizador do Site: www.novainfancia.com.br 
  2. e-mail: glsilva@hotmail.com

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