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O Esquecimento que Mata

29/01/2011 21:16

*Jaciara Santos

Somos, efetivamente, uma sociedade sem memória e movida a espasmos provocados por ondas de sensacionalimos. A cada nova tragédia cotidiana, tratamos de rapidamente varrer da lembrança aquela mesma violência que ontem nos deixou chocados e boquiabertos. Viciados em morbidez, estamos sempre e sempre buscando uma dose maior desse aditivo que parece nos servir de alento.

Essas reflexões me vêm como mote do silêncio ensurdecedor que se fez nesta segunda-feira (24) em torno do primeiro aniversário de morte da universitária Luciana Machado Souza, 27 anos, assassinada há um ano pelo homem com quem casara três dias antes, o agente policial Evaristo Santana Filho, 40.

O crime monopolizou o noticiário por uma semana, talvez. Afinal, continha elementos suficientes para fazer jorrar sangue das manchetes: marido mata a mulher, pouco mais de 48 horas, após o casamento, no dia em que comemoravam as bodas com a família. Por mais inverossímil que possa parecer, foi exatamente o que aconteceu. O casal se desentendeu quando voltava para casa, após passar o dia em um sítio onde festejava com familiares a recente união civil.

O homicídio foi o desfecho de uma discussão aparentemente tola, motivada por uma divergência quanto ao caminho que deveriam percorrer no retorno à residência, em Portão, bairro de Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. Para completar o enredo, Evaristo matou Luciana na presença das filhas que ele e ela traziam de relacionamentos anteriores. A dele, uma adolescente de 15 anos; as dela, uma menina de cinco e outra de onze anos, conforme noticiário da época.

Um outro elemento instigava o interesse da mídia: a peculiaridade de que o autor integrava o quadro do Centro de Operações Especiais (COE), considerado um grupo de elite dentro da polícia baiana. Por supostamente abrigar o que de melhor existe em recursos humanos e técnicos no âmbito da Secretaria de Segurança Pública, a unidade é sempre acionada em ocasiões que exigem a combinação entre inteligência, estratégia e força calculada. Pelo menos, era essa a imagem que a sociedade via quando olhava para o COE. Ao assassinar a mulher numa crise de destempero, Evaristo pôs em dúvida a excelência do grupo.

Mas a qualidade técnica do COE não está em discussão (circulou até o boato de que o agente entrara para o grupo, não pela porta da frente, mas utilizando-se de um acesso lateral, aberto por relações familiares). A questão aqui é fazer um mea culpa pela nossa falta de memória, um dos atalhos mais curtos para a impunidade. Aliás, quem milita na área criminal sabe o quanto pesa o clamor das ruas sobre os humores da Justiça. Quanto mais recente ou quanto maior comoção um crime cause entre a população, maior a chance de punição dos culpados.

Não por acaso, experientes criminalistas usam e abusam das brechas da lei para protelar o momento de ver seus clientes sentados no banco dos réus. Afinal, a emoção costuma ser uma espécie de oitavo jurado no conselho de sentença e pode desequilibrar momentaneamente o placar, levando a decisões flagrantemente contrária às provas acostadas aos autos. No caso de Evaristo, não há como a voz das ruas induzir a erros, uma vez que  a autoria está sobejamente provada: existe confissão, há testemunhas e todas as evidências materiais necessárias.

Exatamente por isso, na iminência de uma decisão em seu desfavor, a defesa vem fazendo com esmero o dever de casa: deixa-o fora da mídia, enquanto trabalha para provar sua suposta inimputabilidade com base em uma questionável doença mental, como reza o artigo 26 do Código Penal, segundo o qual "É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento". Vivendo entre a Corregedoria da Polícia Civil, Chapada do Rio Vermelho, e o Hospital de Custódia e Tratamento, o HCT, na Baixa do Fiscal, Evaristo alterna momentos de absoluta normalidade com períodos em que põe em dúvida a própria sanidade. Faz parte do script. Lembremos, entretanto: esse mesmo cidadão, que ora luta para provar ser doente mental, é o mesmo que fez de tudo para desqualificar o exame psicológico que lhe barrou a entrada na Polícia Civil (ele entrou mediante mandado de segurança).

Resta à sociedade fazer com que as emoções despertadas pelo crime, um ano atrás, permaneçam latentes. A memória de Luciana precisa continuar viva. Que a dor de todos que lhe amaram faça ecoar aos ouvidos da Justiça o clamor pela busca de justiça verdadeira. Que a nossa falta de memória e a busca incessante por novidade não sejam o mote para mais um crime impune, como tantos por aí. O esquecimento, como se sabe, não passa de uma segunda morte.

 

Colunista: Jornalista Jaciara Santos, (jaciara@aqueimaroupa.com.br).


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