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CARNAVAL: SEGREGAÇÃO A TODO VAPOR

12/03/2011 20:23

(*) Glênio Cabral              

 Chegamos ao final de mais um carnaval em Salvador, e a constatação é óbvia: o que antes foi uma festa de caráter democrático e popular, hoje não passa de uma melancólica segregação social. Vamos aos fatos. De um lado temos os blocos de corda repletos de foliões que pagaram caro para estarem ali, e por isso se divertem com segurança e sem preocupações. Do outro lado, mais especificamente do lado de fora dos blocos, temos os foliões "pipoca", aqueles que não tiveram dinheiro pra comprar um abadá e por isso curtem o Carnaval na maior "muvuca", totalmente expostos a violência e espremidos como salsichas carnavalescas. Pois é, meus amigos, o carnaval de Salvador se tornou uma grande coxa de frango: aqueles que podem pagar por um abada abocanham a parte gorda e macia da coxa. Já os mais desafortunados, ou seja, os pipocas, roem os ossos deixados pelos primeiros. E às vezes nem o tutano conseguem chupar.

  E por falar naqueles que não chupam nem o tutano, os cordeiros estão inseridos nesta categoria. Cordeiros são aqueles jovens contratados pelos blocos pra garantir  que os pipocas não entrem nos blocos de corda. Pra isso, os cordeiros seguram uma corda enorme por horas a fio durante todos os dias do carnaval. Geralmente recebem uma diária de apenas R$ 20,00.  Mas recebem outras coisas também, como por exemplo, violência. É bastante comum um cordeiro ser agredido com tapas e pontapés por pessoas de todos os lados, inclusive por seguranças contratados pelos blocos de corda. Ao final do carnaval, suas mãos estão praticamente estouradas, já que não recebem nem ao menos luvas para amenizar o atrito da pele com a corda. Ou seja, apanham, são humilhados e ainda têm as mãos feridas nas cordas. E tudo isso pela exorbitante quantia de R$ 20,00 por dia.   

 Esse é o atual carnaval de Salvador. Um carnaval que exclui e segrega os mais pobres, além de explorar aqueles que não têm muitas opções. Talvez as Tvs devessem transmitir em suas coberturas não apenas a felicidade que há dentro dos blocos de corda, mas também a violência que costuma explodir fora deles e as mãos feridas e inchadas dos explorados cordeiros. Mas pensando bem, como o carnaval é um evento onde muitos gostam de usar máscaras pra se divertir, é natural que esse tipo de transmissão não aconteça. Seria pedir demais.

 


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