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A Última Viagem

26/03/2011 01:06

(*) Jaciara Santos

Conheci o agente Wilson Magalhães da Silva em janeiro deste ano. Estávamos na Ilha de Itaparica - nós (eu e minha família), mais pro lado de Vera Cruz; ele, em Itaparica mesmo, na localidade de Ponta de Areia. Fomos apresentados no sábado antes da Lavagem do Bonfim, dia 8, salvo engano. Ele foi até minha casa, levado por meu irmão João Batista, policial como ele e de quem era muito amigo. Nunca vou esquecer o que ele me disse na ocasião: "Então é você aquela jornalista chata que vivia enchendo o saco da gente?". E contou alguns episódios em que foi procurado por um amigo comum (omito o nome por uma questão de ética, vez que ele continua na ativa) para passar informações em off sobre uma ou outra investigação. "Eu falava pra ele", continuou o falante Wilson, "manda essa jornalista se f..., rapaz, jornalista é tudo f.d.p., mas acabava passando tudo", acrescentou entre gargalhadas. Ele tinha um jeito de rir que contagiava o mais sisudo dos interlocutores. A conversa terminou num abraço fraterno e com a promessa de que, em breve, ele me passaria uma "bomba".

Nos dois dias seguintes, voltamos a nos encontrar.   No domingo, ele conseguiu uma proeza: me fazer dar umas torturantes voltas de carona no jet ski que pilotava. Fomos eu e meu marido montados na garupa e nem fiz questão de esconder que estava vivendo uma experiência apavorante. Gozador, Wilson não deixou barato o vexame. Sempre que nos encontrávamos (depois disso, nos vimos outras duas vezes), perguntava quando eu ia dar outro passeio de jet ski.  Respondia com alguma expressão impublicável, vez que, embora nos conhecêssemos há tão pouco tempo, já nos tratávamos como velhos amigos. A última vez em que ele curtiu com minha cara foi em 2 de fevereiro, na Festa de Iemanjá, quando o encontrei rapidamente. "E aí, vamos dar uma volta de jet ski?", provocou. "Vá à p...!", devolvi.

E foi com um  misto de surpresa e horror que recebi a notícia da morte de Wilson, na sexta-feira pela manhã. Soube através do mesmo irmão que nos apresentara. Estava num táxi, a caminho do trabalho, e fiquei sem ação. Na hora, me veio à mente a lembrança dos filhos dele que conheci: os gêmeos peraltas (dois pestinhas loiros, tão lindos quanto levados),  a mocinha e o menino com jeito de rapazinho que não desgrudava dele. Embora saiba o nome dos quatro, reservo-me o direito de preservá-los. Pensei na orfandade a que foram atiradas abruptamente aquelas quatro criaturinhas que pareciam tão apegadas ao pai. Sei pouco da vida de Wilson, mas o suficiente para intuir que ele amava de paixão aos filhos e os colocava acima de tudo em sua vida.

Provavelmente, foi para os filhos o seu último pensamento. Quem sabe não teria sido esse elo invisível o que lhe teria dado forças para, mesmo baleado mortalmente, acreditar-se em condições de sair em perseguição aos bandidos? Testemunhas contam que Wilson tentou correr atrás dos criminosos e ainda chamou o amigo Edilincolin Silva Lima (mecânico que levara à ilha pra consertar seu "Bugre") para acompanhá-lo. Alvejado na cabeça, Edilincolin teve morte imediata. 

Não sei em que circunstâncias aconteceu o crime. Fala-se em latrocínio (roubo seguido de morte) e até já se tem nome e RG dos supostos autores.  Só o tempo e uma investigação séria poderão dar as respostas que a família, amigos e a sociedade esperam. A hora não é de vingança nem de ações ditadas pelo corporativismo. De nada adianta prender aleatoriamente este ou aquele bandido para que diga que fez o que não fez. Tampouco sair matando criminosos sob a alegação de confronto ou, pior ainda, em ações clandestinas na calada da madrugada. Se não se chegar aos verdadeiros autores, quem sai ganhando é a impunidade.

Não fui ao sepultamento de Wilson. Aproveitei como desculpas a montanha de compromissos profissionais em que estava atolada na sexta-feira e a distância do cemitério escolhido para a cerimônia. Eram impedimentos reais, mas que poderiam ser contornados, caso não houvesse uma outra razão para me omitir. Preferi não ir ao enterro e guardar de Wilson a imagem do gozador, bonachão e sempre pronto para uma piada que conheci na ilha. Sei que, a esta altura, se pudesse ler estas linhas, ele franziria a testa e, com um afetado ar de desdém, me diria na lata: "Deixa de história. Vocês, jornalistas, são todos uns f.d.p.". Pronto, selaríamos a paz com boas gargalhadas...

 

 

Colunista: Jornalista Jaciara Santos, (jaciara@aqueimaroupa.com.br).


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