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Minha Invenção e o Maníaco de Realengo

09/04/2011 15:09

(*) Glênio Cabral

Acabo de ter uma grande idéia: vou inventar um Detector de Intenções. Será uma engenhoca muito parecida com o já popular detector de metais, com uma diferença básica: minha invenção não detectará armas, e sim intenções maléficas escondidas nos terrenos mais sombrios dos corações humanos.

        Sei que minha invenção seria de grande utilidade para os nossos dias. Massas de fiéis, por exemplo, poderiam exigir que seus líderes religiosos passassem pelo detector de intenções pra constatarem o que está por traz de suas mensagens de fé. Se o alarme disparasse, apareceria a seguinte mensagem no painel do aparelho: "Esse cidadão carrega em seu coração o desejo mesquinho de enriquecer às custas dos fiéis." Pronto. O larápio metido a guru seria desmascarado e prontamente exposto ao ridículo.

        O congresso nacional também poderia colocar um aparelho assim na sua entrada. O problema é que desconfio que se isso acontecesse minha pobre engenhoca não faria outra coisa senão apitar, apitar e apitar... e apitaria tanto que acabaria sofrendo uma sobrecarga de energia, vindo a explodir em mil pedaços. Não quero ser acusado de ter explodido o Congresso Nacional.  

       Cerimônias de casamento também poderiam usar o tal aparelho. Ele seria colocado estrategicamente no local em que o casal diz "sim" ao desejo de se tornar "uma só carne". Se o aparelho disparasse, é porque um dos dois não estaria interessado em apenas "uma só carne".  Mas em duas, três, quatro... deixa pra lá. 

        O fato é que minha invenção não passa de um desejo abstrato de minha imaginação, o que é uma pena. Estou certo de que se ela já fosse uma realidade a tragédia de Realengo, por exemplo, não teria acontecido. Se minha engenhoca estivesse na entrada daquela escola, dispararia furiosamente o alarme assim que Welington, o psicótico que matou 13 crianças a tiros, tivesse passado por ela. E no painel eletrônico da máquina apareceria a seguinte mensagem: "Esse cidadão carrega em seu coração um intenso desejo de matar crianças." Pronto. Ele seria detido, entregue às autoridades e julgado por ter apenas desejado matar.

      As grandes tragédias humanas só acontecem porque antes são desejadas nas mentes e nos corações. Tudo começa nos recônditos da alma, onde o Código Penal não tem acesso. Ninguém pode ser preso ou punido por sentir ou desejar algo, por piores que sejam tais pensamentos. As leis atuam apenas quando tudo isso vem à tona na forma de ações e atitudes destrutivas. Mas aí, já pode ser tarde demais.  

     Cabe a nós, sociedade civil organizada, investir pesado na saúde da alma das pessoas. Uma sociedade saudável requer pessoas que tenham pensamentos e intenções saudáveis também. E isso não se consegue apenas com alimentação e educação. Se assim fosse, casos de juízes acusados de receber propinas em troca de sentenças e de médicos que se aproveitam de suas pacientes indefesas não teriam se tornado notícias em telejornais. O nível acadêmico não faz brotar integridade e respeito ao próximo dentro de ninguém.  

      A solução está na família.  Esta instituição, cada vez mais minada por todos os lados precisa voltar a exercer o seu papel na formação do caráter humano. Não se aprende a ter integridade na escola e muito menos na faculdade. Um mau caráter numa faculdade será apenas um sacripanta escolado, nada mais que isso. Formar um bom caráter não é função dos professores nem da escola, é função dos pais. Cabe só a eles tornar esse mundo louco em que vivemos num lugar melhor, ensinando as próximas gerações a terem caráter, integridade, honestidade, amor ao próximo e uma série de outras coisas que só se aprende dentro de casa.  Se a família não voltar a assumir logo esse papel, então é melhor alguém inventar de verdade o Detector de Intenções. Definitivamente vamos precisar dele.

 

 


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